O Líder Herói: Ética e Moral

Recentemente, revi o filme “Menina de Ouro” (Million Dollar Baby“, 2004) dirigido por Clint Eastwood, ganhador de 4 Oscars, inclusive de melhor filme. Para mim, esse inesquecível filme trata, dentre outras coisa, do poder positivo que a admiração por um líder pode exercer nos resultados e na conduta ética de seu liderado. Para reflexão, trago, no extremo oposto, outro filme que fez história: Wall Street: Dinheiro e Cobiça (Wall Street, 1987), dirigido por Oliver Stone, outro ícone do cinema norte americano.

Os dois filmes tem semelhanças e diferenças marcantes. Entre os
tópicos comuns aos dois filmes destaco: para alguém ganhar (dinheiro e respeito), alguém tem de perder; a violência e egoísmo nas relações humanas; a importância de vencer; a força do líder na motivação e performance dos seus liderados;  a marca das relações entre pais e filhos; o final trágico dos protagonistas. As grandes diferenças são: as condutas morais dos líderes; e a força do líder na conduta moral e ética de seus liderados.

Em Menina de Ouro, Maggie (Hilary Swank) é uma pobre garçonete de 32 anos, solitária, oriunda de uma família desestruturada, cujo único prazer é lutar boxe. Perseverante, Maggie quer que o veterano Frankie (Clint) a treine. Ela tem certeza que com a orientação de Frank se tornará campeã. E assim acontece, 1,5 anos após o início dos treinos. Frank & Maggie fazem uma poderosa sociedade. Para ambos, esse encontro é inspirador, revigorante e enriquecedor (inclusive financeiramente). A força positiva do relacionamento com Frank contrastava com a destrutividade da mãe de Maggie que insiste em denigrí-la. Apesar do final trágico, Maggie é uma vencedora. Realizou um sonho. Viveu sua ética e não violou nenhuma lei. Conquistou o respeito próprio e do seu público. Frank a “autorizou” ser campeã. Através dele, ela pode construir sua auto estima e confiança. Esse ponto é chave: Maggie tinha talento, força e garra, mas precisava de alguém para a autorizar se apropriar de si mesma. Escolheu a pessoa certa. Frank, além de ser ótimo tecnicamente, padecia da rejeição de sua única filha que se recusava a falar com ele há anos. Maggie também autorizou Frank a se perdoar como pai.

Como Maggie, em Wall Street, o jovem, talentoso e deslumbrado corretor, Bud Fox (Charlie Sheen) busca incansavelmente a tutela de seu ídolo, o financista milionário Gordon Gekko (Michael Douglas). Como Maggie, Bud também precisava de alguém para autorizá-lo a se apropriar de si mesmo, de seus talentos. Escolheu Gekko e tornou-se um criminoso, violando várias leis no mercado de capitais norte americano. Ganhou dinheiro, mulher bonita, reconhecimento e admiração em seu local de trabalho. Sua ambição não tinha limites, até que Gekko o levou a montar uma transação que quase matou seu próprio pai.

O pai de Budd (o legendário ator Martin Sheen) era em muito aspectos a antítese de  Gekko: humilde, trabalhador na economia real (versus financeira), colocava suas relações e família em primeiro lugar, e não se deixava deslumbrar com as ilusões que o dinheiro pode trazer. Apesar de ter sido criado por seu pai, Budd sucumbe à pior ilusão que o dinheiro e a fama podem trazer: ser melhor do que os outros e, por isso, acreditar que pode fazer qualquer coisa. Seu líder e herói, Gekko, o “legitimava” por benefício próprio, impondo sua próprio ética e moral que estava acima de quaisquer outras, inclusive aquelas previstas em lei.

Maggie perdeu sua vida para uma lutadora amoral, que buscava a vitória à qualquer custo. Perdeu, mas jogou limpo. Budd foi preso por jogar com um líder amoral, cuja ambição não tinha limites. Seu lema era: “ambição é boa”. Sim é, mas com limites, com moral.

Uma terceira conduta e relação entre líder e liderado, distinta de Maggie e Franck, Budd e Gekko, encontro em um terceiro filme:  “A Conspiração”  (The Contender, 2000). Neste filme,  a senadora democrata Laine Hanson (Joan Allen) é escolhida para ser vice presidente dos EUA enfrenta o intenso processo de aprovação conduzido por um senador republicano conservador e preconceituoso, Shelly Runion (Gary Oldman). Laine, uma política de princípios éticos e morais sólidos, no melhor sentido que estas palavras podem ter, foi nomeada para o cargo por um astuto presidente, Jackson Evans (Jeff Bridges). Apesar da nomeação pelo líder herói, a democracia americana exige que o vice presidente seja referendado pelo Congresso & Senado. Laine, com o apoio do presidente, teria de enfrentar Shelly sozinha. Shelly, por razões mais pessoais do que objetivas, não gostava de Laine e estava disposto a reprová-la a qualquer custo. Shelly consegue fotos imprecisas, mas de forte conteúdo sexual, que pareciam provar que Laine havia sido promíscua em sua adolescência. A partir destas “provas”, Shelly conduz uma implacável campanha difamadora, que Laine simplesmente se recusa a comentar.

A recusa de Laine a comentar as acusações de Shelly trazem indignação à todos, inclusive de seu líder herói, o presidente dos EUA. Ela insistia que responder a estas acusações dariam legitimidade a elas, o que não era correto, pois se Laine fosse um homem, provavelmente, estas acusações não teriam a mesma força.

Apesar do alto risco político que corria, Jackson não abriu mão sua escolha por Laine Hanson. Apostou nela até o fim, custasse o que custasse. Mas, ela teve de enfrentar a imensa pressão de Shelly e da opinião pública sozinha, até que um jovem congressista, aliado de Shelly, descobre que as fotos eram falsas e faz a denuncia.

Em minha opinião, “A Conspiração” ilustra o que há de melhor na relação entre um líder e um liderado: uma aposta com autonomia e responsabilidade. Laine não precisou de Jackson para se apropriar. Ela já sabia quem era, qual era seu talento, sua força. Jackson apostou nisso e permitiu que ela enfrentasse a situação por si só. Seu apoio foi direto (ao recusar-se a retirar a nomeação de Laine) e indireto (ao conduzir sua própria investigação sobre os aliados de Shelly). Os heróis aqui são tanto o liderado quanto o líder. Aqui, o final é feliz, diferente de “A Menina de Ouro”.

Enfim, se vivemos num mundo onde para se ganhar, alguém tem de perder, onde somos tentados pelas ilusões do poder, as relações entre líderes e liderados parecem ser determinantes para a construção de uma sociedade melhor. Quer seja essa sociedade representada em uma empresa, num esporte ou na política.

Trata-se de um tema difícil e sutil. Mas, inadiável.

Um abraço,

Eduardo Luzio

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Sobre Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia.

Uma resposta para “O Líder Herói: Ética e Moral”

  1. Gostei muito dos textos encontrados aqui! Parabéns! Conhecimento nunca é demais.

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