Incentivar Pessoas, Mensurar Riscos e Criar na Adversidade…


Publicado em 4/8/2009 no blog da Luzio Visão Estratégica Holística (www.luzio.com.br) sob o título “Desafiando o Senso Comum: Pensando Fora da Caixa”. Revisado e atualizado hoje.

Incentivos x Desempenho, Riscos Reais x Riscos Percebidos, Criando na Adversidade: reflexões a partir de recortes da obra e vida de Steven Levitt (Freakonomics).

Em agosto de 2009, li “Freakonomics – O Lado Oculto e Inesperado de Tudo que nos Afeta” (Editora Campus). Confesso que, há alguns anos, quando ouvi falar no livro e seu inusitado título (“Economia Bizarra” ou “Economia Esquisita”?!), reagi com um desinteresse preconceituoso. Pensei: “mais um best seller”. “Que título é esse?” Após uma referência positiva de alguém que admiro, resolvi lê-lo e me surpreendi. O livro do jovem Professor da Universidade de Chicago, Steven Levitt, me provocou e me ensinou. Não pretendo apresentar aqui uma resenha do livro, mas sim compartilhar alguns ensinamentos e reflexões a partir dele.

Levitt diz não entender de economia e tampouco de matemática. O que Levitt faz é questionar o senso comum das pessoas em questões do cotidiano, usando ferramentas econométricas básicas, como a regressão linear. Levitt também me pareceu ser um apaixonado pela economia, definindo-a como a “Ciência dos Incentivos”. Desta definição veio meu primeiro aprendizado. Sou Economista desde 1988 e, até então, pensava a Economia como a ciência da alocação de recursos escassos. Nunca havia pensado a Economia como a ciência que estuda os incentivos (e desincentivos). É uma definição mais poderosa, que aproxima a Economia do nosso dia a dia, tanto em termos pessoais como profissionais, seja lá quem somos ou o que fazemos.

Exemplo 1. Levitt analisa o pagamento de bônus aos Professores dos colégios de Chicago. Os bônus eram pagos aos professores cujos alunos tiveram bom desempenho nos exames estaduais padronizados. Através de simples, mas inteligente análise dos dados, Levitt mostrou evidências de “trapaças”: os professores podem ter ajudado seus alunos a colarem no exame estadual para que eles, professores, recebessem prêmios por sua didática. Independentemente de como as trapaças ocorreram, o interessante foi a constatação: quando há um incentivo (um bônus), uma métrica e performance (as notas em exames padronizados), os agentes com interesses diferentes podem se articular em benefício próprio para manipular resultados.

O que esse exemplo nos ensina sobre estratégia empresarial?  Muito!

Imagine uma empresa que queira implementar uma estratégia de retenção de talentos. Para isso, a empresa define como métrica de performance de seus gerentes o número de avaliações  de desempenho de seus funcionários “acima da média”. Por um lado, faz muito sentido, pois se as avaliações de desempenho têm metas objetivas, agressivas e um sistema de mensuração “eficaz”, esta métrica indica que “as pessoas certas estão nos lugares certos”. Entretanto, se você já trabalhou com avaliação de desempenho, sabe o quão difícil é elaborar metas objetivas, agressivas e um sistema de mensuração eficaz! Mesmo em bancos, onde a métrica mestre é o dinheiro no caixa, a questão é a qualidade deste dinheiro (pergunte ao Citibank, Lehman Brothers ou Merril Lynch). Portanto, este exemplo de métrica de performance pode incentivar os Gerentes a definirem metas pouco agressivas aos seus funcionários, ou a serem condescendentes com estes em suas avaliações. Veja só o estrago que isso pode causar em uma empresa…

Exemplo 2. Outra reflexão de Levitt: riscos percebidos versus riscos reais. Responda rápido o que você acharia mais perigoso: deixar seu filho brincar numa casa onde há uma arma de fogo guardada ou numa casa com piscina? Eu responderia a casa com arma de fogo. Errado. Estatisticamente, nos Estados Unidos, o risco de uma criança morrer afogada em uma piscina é 100 vezes maior do que um acidente fatal com uma arma de fogo guardada em local não suficientemente seguro. Outra pergunta: o que é mais fácil ser aprovado no Congresso americano: US$ 1 bilhão para uma campanha de prevenção às doenças cardíacas ou US$ 100 bilhões para combater o terrorismo? A história recente mostra que a guerra contra o terror não encontra limites em seus gastos, embora a probabilidade de um americano morrer do coração seja muito superior àquela de morrer de um ataque terrorista. Então, por que a luta contra o terrorismo consegue tanto apoio político? Porque morrer por um ato terrorista é muito mais revoltante para a população do que morrer de enfarte. Esse “fator de revolta” é uma variável que distorce a percepção do risco real das coisas. Distorce, mas ganha votos.

O que isso tem a ver com estratégia empresarial? Muito!

Lembra-se do escândalo da Enron? Em 2000, a empresa texana de distribuição de energia empregava 21 mil pessoas e faturou US$ 101 bilhões. Até então, seus acionistas estavam satisfeitos. No ano seguinte, a companhia surpreendeu o mercado e o mundo ao pedir concordata. A Enron, com ajuda de sua “auditoria independente” – a Arthur Andersen – tinha fraudado seus balanços causando pesados prejuízos aos seus credores, fornecedores, empregados e acionistas. A revolta maior não foi pelas práticas inescrupulosas da empresa, mas sim pelo papel do auditor independente que, por um lado, zelava pela transparência das contas da companhia, e por outro, ganhava fortunas em consultorias na Enron. A Arthur Andersen, até então, uma das cinco maiores empresas de auditoria do mundo, “virou pó” e a partir de então, o governo americano redigiu a lei Sarbanes-Oxley, em 2002, que impunha severas restrições aos serviços de consultoria dos auditores independentes. Muito bem. E o que isso ajudou a evitar a atual crise imobiliária nos Estados Unidos? Quem é o culpado? O Banco Central Norte-Americano (FED)? As agências de classificação de riscos? Ou as práticas inescrupulosas dos bancos? Estamos discutindo novamente o risco errado? O risco está no agente supervisor ou nos incentivos aos agentes executores?

Exemplo 3. Por fim, Levitt provoca mais uma reflexão interessante: o quão importante é sermos honestos sobre nossas limitações. Levitt é de uma sinceridade impressionante e corajosa. Fez seu PhD em Economia no MIT e não sabia matemática. E não sabe até hoje, mas desde cedo produziu pesquisas inovadoras. Diz não saber teoria econômica e é professor da melhor universidade americana de economia (minha opinião): a Universidade de Chicago. Sua pesquisa sobre percepção de risco, aquela sobre o risco de uma criança morrer de acidente com arma de fogo ou afogada numa piscina, veio de experiência própria. Seu primeiro filho morreu de meningite um dia após seu primeiro aniversário. Ele e a esposa freqüentaram grupos de auto-apoio de pais que perderam filhos infantes, onde percebeu o incrível número de mortes de crianças por afogamento em piscinas.  Ou seja, Levitt criou a partir de sua experiência trágica. Não teve medo de esconder sua humanidade. Pelo contrário, sua humanidade foi sua fonte inspiradora. Foi a “energia” que o moveu. Foi a partir dela que produziu sua obra provocativa e inspiradora. Precisamos de mais Levitts nas universidades e nas empresas…

E você, tem alguma experiência de tentar incentivar pessoas que lhe trouxe resultados inusitados? Ou riscos percebidos muito distintos de sua probabilidade de se realizar? Ou ainda, momentos de adversidades severas que lhe proporcionaram inspiração e produção inovadora?

Um abraço,

Eduardo Luzio

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

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