Perder o Pai vs Perder o Emprego

Há três semanas perdi meu pai, como já havia comentado em um post anterior. Curioso foi que no mesmo dia, um amigo me ligou contando que havia sido demitido. Não sabia dizer quem estava mais transtornado com a perda, eu ou ele. Essa coincidência me fez refletir sobre as semelhanças e diferenças das experiências de perder o pai e perder o emprego.

As duas experiências nos apresentam sensações difíceis até de descrever. Vou tentar…

Primeiro, assim como temos certeza desde que nascemos que iremos morrer e pagar muitos impostos, todos nós, algum dia, seremos demitidos. É possível também que sejamos demitidos mais de uma vez. Portanto, a primeira distinção que se faz necessária é entre perder o pai e perder um emprego. É só um emprego, dentre vários que podemos ter ao longo de nossa vida. E pai, só temos um. O problema é que quando perdemos o emprego, pode demorar um bom tempo para perceber que perdemos um emprego.

Segundo, perder um emprego pode significar, para muitos de nós, perder parte de nossa identidade, um norte, um código de valores. Perder uma fonte de sustento financeiro. Perder um pilar na nossa sensação de segurança. Abalar nossa auto estima. Perder o convívio com pessoas que aprendemos à gostar. Para muitos, perder o emprego é “perder o chão”. Perder um pai pode implicar em todas estas sensações também, além daquela saudade que só faz crescer.

Terceiro, perder um emprego exige de nós um restruturação pessoal e material. Não é só rever as despesas mensais e adiar viagens, ou a troca do carro. É tentar digerir o que aconteceu. Rever eventos, relações, descuidos, coisas que não fizemos ou que gostaríamos de ter feito diferente. Lembrar dos bons momentos e sentir falta deles. A perda do pai também traz reflexões e sensações semelhantes, porém não há mais tempo para reparações. Não com o pai. Talvez, com o nosso filho e/ou a nossa filha.

Mas, há tempo de tentar reparar (o que for possível) em outro emprego.

Quarto, em ambas as situações, por mais estruturados que possamos ser, acho que a “pergunta” nos assalta: “o que será de mim, agora”? Algo mudou. Algo que muitas vezes é difícil de identificar, de nomear. Mas, a certeza é que algo mudou. Mudou para sempre. A questão é: o que vamos fazer com tudo isso que sentimos, que nos inquieta? O que você faria?

Um abraço,

Eduardo Luzio

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

4 Respostas to “Perder o Pai vs Perder o Emprego”

  1. Edu, ler seu post me fez pensar algumas coisas. De fato são duas experiências que de certa forma temos um conhecimento prévio, porém deles nada queremos saber, nem pensar e quem dirá sentir.
    Perder um pai a meu ver é perder o prumo, perder as leis que norteavam nossas escolhas e princípios, é ter que se perguntar e agora,continuo me guiando pelas mesmas normas ou as reavalio?
    Perder um emprego ou melhor dizendo ser demitido me evoca um sentido de desaprovação, não aceitação.É como se deixassemos de ser aceito para ficar no lugar de rejeitado, daquele que é desaprovado. E passamos um bom tempo querendo entender o que fizemos de errado.
    Mas acho que a semelhança entre eles é que ambos exigem mudança, reavaliação e questionamento sobre o que queremos e desejamos. E isso mexe com a gente, porque me diga quem quer se responsabilizar e pagar o preço de suas vontades, sonhos e desejos!?!?!?!?

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    • Juliana,
      ao ler seu email me vem um pensamento: quantas pessoas não seguem as profissões de seus pais? Apesar das diferenças objetivas óbvias entre perder o pai e perder um emprego, me parece haver algo, do subjetivo, que perpassa essas duas importantes figuras: o pai e o emprego.
      Vc traz um ponto importante: o quanto queremos saber destas experiências. Saber mesmo, mergulhar na dor e se repensar, se reposicionar perante a vida e o outro.
      Um abraço,

      Eduardo

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  2. Eduardo, desculpe a sinceridade e espero que acredite que digo aqui palavras sinceras. Comparar a perda de um pai à perda de um emprego me parece desrespeitoso e leviano.
    Pai é genética, família, antropologia, carinho.

    Emprego é, antes de mais nada, dinheiro e circunstância. E se sentir mal por perdê-lo pode ser explicado por afã, por sobrevivência ou mera cultura. Fatores muito distintos entre si e nenhum, em minha opinião, semelhante à perda de um pai, mãe, irmão, esposa, filho, primo…

    Perder o emprego está na esfera do material, e um pouco em nossa realização como ser social, e tem muito a ver com a percepção do valor que temos para nosso empregador. Não para nós, como deveria ser, e sim para ele – mas é dele de quem depende nosso emprego. É puro racional.

    Mas perder um pai…

    Se ele falhou ou foi “mau”, é doloroso porque filhos amam e é tortura não ter um modelo perfeito como pai. Perdê-lo é o mal e o bem, com todo o peso na consciência que isso traz.

    Se ele falhou como qualquer pai mas foi acima de tudo um pai para você, não o desrespeite, mesmo se quer amenizar uma situação de um amigo que perdeu o emprego.

    Pés no chão e visão cristalina e honesta de nossa realidade, como filhos, empregados, amigos, maridos… é algo que vejo muitos negligenciarem.

    A sociedade é cruel? Os pais são frustrantes? Empregos também? Acho que nós somos mais cruéis conosco quando delegamos a eles nossas desgraças. Explica mas não justifica.

    As coisas são mais simples do que tudo isso.

    Perder um pai é uma tristeza enorme, não um evento.

    Perder um emprego é uma falta de sorte ou de competência.

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    • Olá,

      não sei seu nome. Se me permite, vou chamá-lo(a) de colega. Colega do debate público que este blog quer promover. Agradeço seu comentário, que me é muito valioso.
      Tanto o meu post de 4/ago quanto o de 16/jul falam sobre aspectos da experiência subjetiva de se perder o pai. Por tratar de subjetividade, não abordo o aspecto moral da experiência de perder o pai e um emprego. Na subjetividade,o “bom”e o “mal” coexistentem. O valor de cada experiência é pessoal, individual e intransferível. Não há competentes ou incompetentes, mas apenas pessoas tentando fazer o melhor que podem. Tenho um amigo, que trabalhava em um banco havia 30 anos. Começou como contínuo e chegou a superintendente. Uma vez me disse: “se eu perder este emprego, eu morro”. Enfim, cada um sente como e o que pode. Um cidadão francês, personagem de Albert Camus, no romance “O Estrangeiro”, vai a julgamento por matar um árabe na Argélia. No julgamento, é condenado. Não porque matou um árabe, mas por não ter chorado no funeral de sua mãe. Não ter chorado quer dizer que não sentiu?
      Por anos, o meu percurso profissional e pessoal foi marcado pelo paradigma cartesiano da objetividade. Há alguns anos, me dei conta de algo muito maior e mais poderoso que a dita “racionalidade”: a subjetividade. Nela não há acordos, convenções. Há singularidade. Cada um fazendo o que pode, não o que deve.
      Um abraço,

      Eduardo

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