R$ 800 milhões viraram pó: ponto fora da curva?

Na sexta feira passada, o Valor Econômico publicou um artigo na primeira página sobre o fundo brasileiro da factoring Union de R$ 800 milhões que “virou pó”. A notícia imediatamente me chamou a atenção por vários motivos:

(1) o volume das perdas é significativo e os investidores envolvidos eram sofisticados. Trata-se de 17 investidores, dentre eles 16 fundos hedge estrangeiros e um fundo de pensão brasileiro. Se investidores sofisticados como estes sofrem este tipo de perda, que dirá nós, investidores privados, leigos, que buscamos proteger nossas reservas?

(2) é a primeira vez que ouço uma notícia desta natureza sobre este tipo de fundo de investimento (FIDC) e neste volume. Os FIDCs são fundos que investem na aquisição de títulos de financiamento ao consumidor. No caso da Union, tratava-se de títulos de: uma grande universidade privada; de cooperativas; e empresas manufatureiras. O fundo era administrado por profissionais que deveriam zelar pela análise de crédito dos títulos comprados pelo fundo. O jornal afirma que um dos administradores era também conselheiro de uma das empresas cujos títulos se mostraram inadimplentes, indicando um conflito de interesses. Como evitar este tipo de conflito de interesse tão nefasto?

(3) em março de 2009, a agência classificadora de risco, atribuiu nota “A+” ao fundo. Em setembro, a mesma agência atribuiu a nota “CCC” ao mesmo fundo. Em 6 meses, como a análise de risco mudou tanto? Como podemos confiar nessas agências de rating?

(4) o volume de créditos atrasados passou de 13% da carteira para 96% em seis meses (março a setembro de 2009). Aparentemente, tratava-se de títulos ligados à vários segmentos do varejo brasileiro. Ok, estávamos saindo da “marolinha” de outubro de 2008, mas mesmo assim, me parece uma deterioração muito radical em tão pouco tempo. Será que este títulos representam uma amostra muito viesada da inadimplência na economia brasileira ou não?

Conflitos de interesse na administração de fundos, ratings insustentáveis e inadimplência explosiva: ponto fora da curva, ou sinal de algo pior em nossa economia e mercado de capitais?

Um abraço,

Eduardo Luzio

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

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