Teremos um novo apagão?

Semana passada estive em um seminário sobre o setor elétrico brasileiro (7o. ENASE), onde muitos temas interessantes foram discutidos. O seminário reuniu 552 profissionais do setor e 17 associações de classe. No começo do seminário, me empolguei com as palavras do representante do Governo (Maurício Tolmasquim): “o Brasil se tornou uma potência energética”. Muito se falou sobre o potencial energético:

  • dos rios inexplorados do “bioma amazônico” (153 GW, dos quais só exploramos 7%);
  • dos ventos (300 GW, o que eqüivale a mais de 20 Itaipús, sendo que hoje, só temos 2GW de capacidade instalada);
  • do gás natural (a produção nacional deve aumentar dos atuais 49 m3/dia para 167 m3/dia em 2019);
  • das Pequenas Centrais Hidroelétricas – PCHs (23,7 GW);
  • do bagaço da cana (dos atuais 3,9 GW para 74 GW até 2019); e etc…

Adicionalmente, mais 37 mil kms de linhas de transmissão (LTs) deverão ser construídas até 2017. “Necessidades para os próximos 10 anos estão viabilizadas”, diz o representante do Governo. Pensei: “que bom! Apagões, nunca mais…”. Mas, nas palestras seguintes, minhas dúvidas cresceram:

(1) Projeção do Crescimento da Demanda x Oferta. Tolmasquim não deixou cópia de sua apresentação, mas me chamou atenção um de seus slides: “se o PIB brasileiro crescer 5% ao ano, e a demanda de energia, 5% ao ano, não faltará energia”. Mas, a elasticidade PIB da demanda por energia elétrica no Brasil é de 1,5! Ou seja, para um PIB crescendo a 5% aa, a demanda por energia crescerá 7,5% e não 5% aa. Segundo Tolmasquim, a capacidade instalada da geração de energia no Brasil deverá crescer de 104 GW em 2009 para 167 GW em 2019. Isso representa um crescimento médio de 4,85% aa e não 7,5% aa. Pelas minhas contas, para atender um crescimento na demanda de 7.5% aa., a oferta de energia deveria crescer para 214 GW até 2019, ou seja, 47 GW a mais do que o Governo prevê…

(2) Planejamento x Execução. Da expansão na capacidade geradora que o Governo prevê até 2019 (63 GW), 71% está “contratada”e 29% está “em planejamento”. Ou seja, há 18 GW ainda “em planejamento”… Entretanto, fontes do setor indicam que só 72% da expansão projetada para 2010 será completada. Ou seja, entre o que é planejado e o que é executado, há uma diferença de 28%. Se aplicarmos está média às expansões “contratadas” teremos 12,5 GW que podem não ser executados a tempo. Ou seja, dos 63 GW que o governo prevê na expansão da capacidade, 30,5 GW podem não ocorrer a tempo…

(3) Atraso nas Licenças Ambientais. A expansão das LTs devem ocorrer junto com a expansão na geração da Amazônia. Entretanto, o atraso médio na obtenção de licenças ambientais para é de 17 meses! 40% das LTs em implantação no Brasil, hoje, estão em atraso. Pela mesma causa, o atraso médio de oito usinas hidrelétricas foi de 1,8 anos!

(4) Incertezas Regulatórias. Há 17 GW de energia que deverão ser contratados entre 2012 a 2014 que ainda estão sem solução há 2 anos dado à indefinição quanto a renovação das concessões das hidrelétricas que vencerão em 2015 (22 GW). Quanto mais o Brasil pode esperar por uma definição?

(5) Carga Tributária e o Custo da Energia. Neste tema, os números impressionam: a carga de impostos em investimentos do setor é de 36% (além disso, 10% de todo orçamento de investimento é gasto com programas sócio ambientais). Cerca de 50% da tarifa de energia corresponde à impostos e encargos. Não basta ter energia, precisamos ter energia barata! A indústria brasileira já sofre com o câmbio valorizado, altos impostos e também altos custos da energia!

(6) Uso de Energia Termelétrica à Diesel x Preço da Energia. Com as pressões ambientais, as novas hidroelétricas (UHEs e PCHs) tendem a não ter reservatórios para minimizar seus impactos (usina tipo “fio d’água”). O mega projeto de Belo Monte na Amazônia, por exemplo, terá capacidade instalada de 12 GW (Itaipú tem 14 GW). Entretanto, por ser uma usina “plataforma”, ou seja, com um reservatório diminuto, sua geração média será de 8 GW. A vazão máxima de Belo Monte é 20x maior do que a vazão mínima. Ou seja, Belo Monte estará muito dependente do regime de chuvas, que pdoeria ser minimizado com um reservatório maior. Isso implicará em maior instabilidade na oferta de energia que dependerá ainda mais das chuvas. Para diminuir essa instabilidade, o Sistema já tem acionado às usinas térmicas à diesel, que custam bem mais caro (R$ 490 a R$ 800 / MWh), além de poluir o ambiente. Esse custo já está sendo rateado por todos consumidores.

Trocando em miúdos, de tudo o que ouvi, me parece que teremos energia, com um certo grau de segurança, até 2013, mas depois disso há muitas incertezas. Adicionalmente, a questão do preço da energia (até 2013 e depois) continua incerta e a tendência parece ser de alta.

O que você acha? Estamos correndo o risco de novas crises de energia elétrica?

Um abraço,

Eduardo Luzio

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

3 Respostas to “Teremos um novo apagão?”

  1. Boa analise Edu!

    Como entao “fill the gap”?

    Como o setor privado, aqueles que estao querendo investir no setor podem se posicionar, justamente para “fill the gap”? No passado como vc observou, o governo resolveu o assunto com apagao e recessao.

    Mas agora, dada inclusive a situacao economica do pais, acho que existem varias opcoes interessantes para gerar uma oferta maior de energia eletrica, combinando setor publico e privado e claro, com opcoes, inclusive limpas para diversificar essas fontes ao longo do tempo.

    Voce conhece literatura que esta exatamente analisando possiveis solucoes para esse gap? Vc esta pensando em escrever sobre isso? Sobre potenciais solucoes p/ expansao da oferta?

    Para o setor privado interessado em “fill the gap” e “reap the benefits” dessa potencial falta de energia eletrica futura, o melhor dos mundos seria que seus projetos estivessem aninhados dentro de uma politica energetica de longo prazo para o Brasil.

    Isso e possivel? Da pra fazer isso, se posicionar dessa forma? Influenciar gente como o Tomasquin e aqueles que estarao fazendo planejamento estrategico nessa area?

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    • Tati,

      opções para aumentar a oferta não faltam. O Brasil é muito afortunado em seu potencial energético. Acredito que a questão do “gap” pode se resumir na dificuldade do Governo em promover um planejamento eficaz e coordenado em sua várias esferas. O exemplo mais importante é o atraso nas emissões das licenças ambientais. O Governo licita usinas e linhas de transmissão com licença prévia (LP), mas no momento de obter as outras licenças (licença de instalação (LI) e licença de operação (LO), os atrasos são inevitáveis. Dei alguns exemplos destes atrasos médios no texto anterior.
      Já perguntei a várias pessoas do setor, por que há tantos atrasos. Menciona-se: falta de pessoal nos órgãos ambientais; falta de processos padronizados; e responsabilidade criminal imputada dos técnicos do governo em caso de desastres ecológicos, que somado aos dois itens anteriores, cria um ciclo vicioso.
      Os exemplos de absurdos são inúmeros. Ouvi dizer que uma importante linha de transmissão ligando Roraima (ou Rondônia?) ao Sistema teve sua entrada em operação adiada em 30 dias porque o funcionário responsável do órgão ambiental tirou ferias. Por causa disso, a energia de Roraima continuou sendo gerada por termelétricas à diesel, que custou R$ 58 milhões a mais ao Sistema, ou seja, à nós todos usuários. Que férias caras, não é?
      Outro exemplo, fora do setor elétrico foi de um cliente que implantou um projeto de produção agro pecuária orgânica. O projeto, por definição é muito favorável ao meio ambiente. Nem por isso, a obtenção do termo de isenção da licença ambiental levou meses.
      Enquanto a questão dos processos de concessão de licenças ambientais não for agilizado, parece que teremos sempre um “gap” entre o que podemos fazer e o realmente conseguimos fazer. Importante: isso não quer dizer que estou defendendo processos de licenciamento mais frouxos. Não é nada disso. Dizem que a legislação brasileira é muito rigorosa e exemplar a nível mundial. O problema esta na implementação desta legislação no dia a dia dos projetos.

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Trackbacks/Pingbacks

  1. Quem é responsável pela sua prosperidade? | Reflexões sobre valor - 4 de Junho de 2014

    […] erramos em custos e prazos de implementação”. Eu mesmo escrevi um post em outubro de 2010 (https://eduardoluzio.wordpress.com/2010/10/04/teremos-um-novo-apagao/), resumindo o ENASE daquele ano e apontando o risco de apagão já em 2013. Resultado: em 2013 […]

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