Natureza Humana e Crise Financeira: Qual é o Elo?

Comecei a ler “This Time is Different” (publicado no Brasil com o título: “Oito séculos de delírios financeiros – desta vez é diferente”) dos professores americanos Reinhart e Rogoff. O livro foi publicado nos EUA pela Universidade de Princenton, uma das que mais admiro. Já nas primeira páginas, fiquei fascinado com o trabalho de pesquisa, algumas das principais constatações dos autores e as perguntas que estas me suscitaram.

Primeiro, a extensão do trabalho de pesquisa: os autores pesquisaram a história das crises financeiras de 66 países ao longo de 800 anos!

Segundo, as constatações iniciais do livro são tão contundentes quanto inquietantes:

  1. há claras evidências de repetições nas causas das crises estudadas;
  2. em todas as crises há uma causa em comum: a acumulação de endividamento excessivo em épocas de forte crescimento econômico. Endividamento este que pode ser do governo, das empresas, dos bancos e/ou consumidores;
  3. dos vários tipos de crise pesquisados, a crise bancária afeta tanto países desenvolvidos quanto os subdesenvolvidos;
  4. crises financeiras são processos longos que devem ser estudados em intervalos superiores a 20 anos para poderem ser compreendidas;
  5. a dívida pública direta e indireta (através de garantias dadas pelos governos às dívidas dos outros, por exemplo, dos depósitos em bancos privados e estatais, garantias de solvência aos fundos de pensão de funcionários públicos) é um dos vetores mais graves das crises. A falta de transparência dos dados sobre a dívida dos governos é ridiculamente grande, em todos os países estudados. A história do calote da dívida pública não é privilégio do Brasil de Sarney e Collor. A Espanha, por exemplo, já deu o calote 7 vezes (século XIX)!

Estas constatações iniciais suscitaram as seguintes perguntas:

  1. se há claras evidências de repetições nas causas das crises estudadas, por que não conseguimos evitá-las?
  2. Que compulsão é essa que nos leva a endividarmos muito mais que podemos durante épocas de fartura, quando sabemos que sempre há riscos de revezes na economia?
  3. Que dinâmica psíquica prevalece nos bancos que os leva as crises e que parece ser tão resiliente as crescentes pressões regulatórias dos Bancos Centrais?
  4. Por que as crises duram tantos anos? Será que há a influência da nossa tendência ao auto-engano? Ou seja, temos uma crise grave e assustadora. O Governo adota medidas de curto prazo e nos convence que se trata de uma “marolinha” e não um “tsunami”. Acreditamos, até que a crise se manifeste novamente? Me lembra os vários planos de estabilização que tivemos no Brasil nos anos 80 e 90, até a solução amarga do Plano Real…
  5. Que governantes são estes que acumulam tantas dívidas e escondem de seus governados dados sobre algo que lhes diz tanto respeito? Interessante notar que o período observado (8 séculos) inclui vários tipos de governos diferentes: monarquias; socialismo; autoritarismo; e democracia… Ou seja, me parece que não é uma questão do sistema político, mas do papel do governante exerce.

Você acha que a crise internacional de 2008 já foi resolvida para o Brasil? Você acha que nosso governo esta adotando uma política econômica prudente para sustentar o crescimento e a estabilidade de nossa economia?

Um abraço,

Eduardo Luzio

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

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