Por que denegrir a herança de FHC?

De todas as situações inusitadas que vivemos nestes meses que antecederam as eleições presidenciais, uma das que mais me intrigou foi a maneira com que o Governo denegriu a herança de FHC.

Este é meu primeiro post com ênfase política. Estava evitando escrever sobre este tema, até porque não faz parte do objetivo do meu blog. Mas, diante dos fatos, não conseguir conter minha indignação. A gota d’água foram dois emails que recebi de um amigo procurando subsídios para poder escolher melhor em quem votar. Parte de suas dúvidas se referiam à dita herança “nociva” de FHC. Discordo!

(1) na era FHC, o Brasil tinha desemprego e não crescia porque vivemos decadas de hiperinflação, que levou anos para se concertar. Além disso, durante a era FHC vivemos três crises internacionais (México em 95, Asia em 97 e Russia em 98). Apesar das crises, FHC preparou as bases para o crescimento da economia que hoje podemos desfrutar. FHC solicitou ajuda do FMI não por gosto, mas por necessidade.

(2) na era FHC, estavamos saindo de uma crise de 20 anos de hiperinflação. Só p/ vcs ter uma idéia, estou lendo um livro sobre a história das crises financeiras no mundo. Um país tem uma crise de hiperinflação quando a inflação NO ANO chega a 25%. Nós tínhamos 80% AO MÊS! Este era o tamanho do ENROSCO que o Plano Real atacou ao longo dos mandatos de FHC e no 1o mandato de Lula, com o Palocci. O governo brasileiro estava com suas finanças em frangalhos. Gastava mais do que arrecadava, endividado e sem credibilidade (Sarney decretou o calote à divida internacional em 1985 e Collor o calote à divida nacional em 1990). O Brasil precisava do FMI para lhe dar alguma credibilidade no mercado de capitais internacional.

(3) Imagine se você gastasse mais do que ganha e ainda desse dois calotes nas pessoas que lhe financiaram. Quanto tempo e esforço você precisaria para reconquistar a confiança das pessoas? Na era FHC, houve pouco investimento público porque não havia R$. Aliás, as privatizações foram feitas para arrecadar mais R$ para pagar as dívidas e incentivar os investimentos privados na infraestrutura que o nosso governo não podia fazer.

(4) A questão dos benefícios da privatização tem de ser enfatizada. O que existia antes da privatização? Muita gente enriquecendo as nossas custas. Na época que um telefone fixo era vendido à US$ 10 mil, eu tinha uma conhecida cujo pai trabalhava na TELESP. O cara tinha 2 aptos no Paraíso: um para morar e outro para guardar sua coleção de latas de cerveja… Isso que é elite! Após a privatização, o número de telefones aumentou 10x em menos de uma década e ninguém precisa pagar para ter um telefone fixo (e até móvel, dependendo do aparelho). A Seuly Caldas (OESP, p. B2, 3/11/10) fez um apanhado de alguns dos benefícios da privatização da Vale do Rio Doce: gerou 112 mil empregos (contra 11 mil antes da privatização); pagou US$ 13 bilhões de impostos à União (659% a mais do que em seus 54 anos de estatal); investiu US$ 86 bilhões (contra US$ 26 bilhões de sua era estatal).

(5) o PT se orgulha do bolsa família. É para ter mesmo. E FHC? Na hiperinflação, existia um fenômeno denominado “imposto inflacionário”: as classes menos favorecidas, sem acesso aos bancos e à correção monetária, perdiam rapidamente poder de compra do salário que recebiam. Com o Plano Real, milhares de brasileiros deixaram de “pagar” o imposto inflacionário. Ou seja, o fim da inflação também foi um programa social e mais abrangente quanto o bolsa família.

(6) em 2005, quando o Brasil conseguiu elevar seu rating para o grau de investimento, foi uma grande vitória para o país. O custo de capital acabava de se reduzir e habilitar os fundos de pensão estrangeiros a investir no Brasil. Isso aumentou as capacidade do país em gerar empregos e financiar o consumo. O grau de investimento não foi uma vitória só de Lula. Foi um trabalho que começou com o Plano Real (Itamar Franco), continuou com FHC e Lula.

(7) Lula desfrutou de condições internacionais excepcionais. O Brasil virou a “bola da vez” para os investidores internacionais. Sob alicerces firmes que FHC construiu e Palocci ajudou a manter, Lula pode pagar o FMI. A economia brasileira cresceu, apesar de Lula não ter feito as reformas tributárias (vocês sabiam que 50% da nossa conta de luz são impostos?) e previdenciária (uma das grandes fontes de gastos do governo). A economia cresceu, a arrecadação de impostos cresceu e o Governo (pós Palloci) começou a gastar. Gastar com aumento do funcionalismo público, ou seja, não com investimentos ou poupança pública! Em época de bonança, o que nós mortais fazemos? Poupamos um pouco que ganhamos para os dias de crise que virão. Ao invés disso, o Governo resolveu gastar mais e pior…

Por que Lula e Dilma precisam denegrir o trabalho de FHC? Por que não defender os avanços que efetivamente conseguiram, sem precisar distorcer os fatos?

Ao expor estes argumentos ao meu amigo, a sua resposta é que me deixou mais estupefato: “eu esqueci que tivemos 80% de inflação ao mês”. Se uma pessoa inteligente e bem educada como este meu amigo esquece do que o país passou há pouco tempo, que dirá a média da população?

Um abraço,

Eduardo Luzio

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

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