Michael Milken: o melhor e o pior no mercado de capitais

Michael Milken (MM) é uma figura fascinante pelo que fez de melhor e de pior. Em 23/outubro, a The Economist publicou um artigo (“Stars of the Junkyard“, p. 83/85) sobre MM, na ocasião do aniversários e 20 anos da falência de seu banco de investimento, a Drexel Burnhan Lambert (DBL). Foi uma delícia ler este artigo.

A primeira vez que ouvi falar sobre MM foi em 1990, quando eu começava meu mestrado em finanças na Universidade de Illinois. Na época, MM já era um ícone em Wall Street e já fazia manchetes nas páginas policiais.

A década de 80 foi marcada por inovações e transações emblemáticas em Wall Street, e MM contribuiu muito com seus junk bonds (são bonds de alto risco e como tal pagam altos juros).  MM não inventou os junk bonds, mas sem dúvida deu nova vida a eles. Através dos junk bonds, MM conseguiu financiar muitas empresas de médio porte, inovadoras e/ou com estratégias de alto risco que não tinham acesso ao crédito bancário tradicional. Empresas de tecnologia, mídia (a rede CNN por exemplo), telefonia (a MCI, concorrente da AT&T), entretenimento, etc. Empresas com boas perspectivas de crescimento, mas alto risco. Como tal, não tinham apelo para os bancos tradicionais, mas no fabuloso e sofisticado mercado de capitais norte americano, sempre há muita gente buscando ganhos maiores, mesmo em troca de riscos maiores.

Os junk bonds de MM também financiaram aquisições hostis (takeovers) de empresas mal geridas por investidores especialistas (corporate ryders) que as compravam, corrigiam seus desperdícios e ineficiência para vendê-las depois com lucro. O personagem de Richard Gere era um destes ryders no file “Uma Linda Mulher” (“Pretty Woman“).

Comprar o controle de empresas era (e ainda é) possível nas bolsas de valores dos EUA (no Brasil é mais difícil). Os takeovers serviram (e servem) como ameaça real aos executivos se acomodam no sucesso e que não se empenham para administrar bem as empresas para quem trabalham.

Atendendo estes dois tipos de clientes dos junk bonds, os corporate ryders e as empresas médias de alto risco sem acesso aos bancos, MM ajudou a trazer eficiência e dinamismo à economia americana. Infelizmente, “a ambição destrói o cidadão”, como me dizia meu ex-chefe. Milkem, não contente com a fortuna e poder que ganhou com seus junk bonds, resolveu ganhar mais vendendo informação privilegiada e acabou na cadeia! Quem se interessar e quiser saber mais sobre o auge e a derrocada de MM pode ler o excelente livro “Covil dos Ladrões”.

Hoje, 20 anos após o fim de MM, os junk bonds continuam financiando transações de aquisição e empresas de alto risco. Segundo a The Economist, em 1990, o estoque de junk bonds nos EUA era de US$ 150 bilhões e hoje soma US$ 1 trilhão! O sucesso se deve ao fato que apesar de serem investimentos de alto risco, a taxa efetiva de default destes bonds é historicamente baixa. Um bond de uma ótima empresa (os ditos investment grade) é menos arriscado, mas paga bem menos e, como tal, seu retorno (yield) só pode piorar.

MM tinha vários talentos e um deles era conquistar a confiança de seus clientes. Ele fazia isso não só viabilizando seus projetos com as emissões dos bonds, mas também fornecendo liquidez aos investidores. Ou seja, se algum investidor dos bonds de Milken precisasse vender o título e não encontrasse comprador no mercado, a DBL os comprava. Ou seja, além de emissor MM também era o marketmaker de seus bonds, o que gerava uma tremenda confiança tanto nas empresas financiadas (emissores) quanto nos compradores dos bonds.

Os junk bonds são meios incríveis para financiar empresas que não se importam em pagar altos juros, pois sairia mais caro para elas não ter o dinheiro para poder financiar suas atividades, seus planos de investimento. É uma maneira de “democratizar o crédito”, o que seria ótimo se acontecesse no Brasil, onde o crédito de longo prazo é praticamente monopólio de um só banco (o BNDES). Alguns junk bonds são do tipo “zero coupon“, ou seja, a empresa só paga todos os juros e devolve o principal de uma só vez no fim do prazo do empréstimo. Isso deixa a empresa emissora em uma situação financeira mais confortável durante os anos de investimento, quando as receitas são incertas e os custos altos.

Emprestar dinheiro para empresas com histórico financeiro sólido é fácil. Mas, não são essas empresas que podem garantir altas taxas de crescimento a qualquer economia. Infelizmente, no Brasil, nosso mercado e capitais tem muito o que crescer e se sofisticar. O governo também tem de mudar sua relação com o mercado, oferecendo prêmios a quem investe no longo prazo e reduzindo seus gastos para poder reduzir a taxa básica de juros. Infelizmente, acho que minha geração não verá esse dia chegar. Espero estar errado.

Bom feriado,

Eduardo Luzio

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

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