A Importância da Coesão entre Sócios

Em abril, cinco artigos na mídia me chamaram a atenção e todos eles falam de uma maneira direta ou indireta do poder e da coesão (ou falta de) entre os acionistas. Quatro dos cinco artigos falam sobre empresas de destaque (Natura, Coteminas, CAB Ambiental, Oi, Petrobrás) e outro é mais abrangente, pertinente à todas as empresas de capital aberto no Brasil. São artigos que exemplificam importantes diferenças entre acionistas majoritários e os minoritários.

Desde que me entendo por executivo em finanças utilizo o método do fluxo descontado de caixa (FDC) para analisar empresas e projetos e identificar possíveis transações. O FDC tem como premissa básica que dentre os vários grupos de interesse que gravitam em torno de uma empresa, os acionistas são o grupo mais comprometido com a sustentabilidade econômica da empresa. No entanto, os acionistas não são um bloco monolítico, homogêneo.

Há acionistas majoritários e minoritários. Há acionistas que participam da administração da empresa e outros que não. Ambos são fonte de um dos principais vetores de sustentabilidade de uma empresa: o capital de risco. O capital de risco é aquele que não tem prazo para ser repago, não tem garantias e não possui remuneração pré definida. Como donos deste capital, os acionistas, em teoria, querem que a empresa prospere da melhor maneira possível. Na prática, os acionistas enquanto grupo não são necessariamente coesos. Podem ter visões muito diferentes da mesma empresa e desencontros podem ser desastrosos. No relacionamento entre acionistas, como entre qualquer outro grupo de pessoas, a confiança é tão importante quanto frágil.

Pode ter sido o caso da CAB Ambiental (“Não sei se erramos. Mas só erra quem faz”, OESP, 11/4/2011, pag. 2 do Caderno Negócios). A empresa de saneamento básico tentou fazer sua primeira emissão de ações na Bolsa (IPO) no começo deste ano e não conseguiu. Por que? Nas palavras de seu presidente, os investidores não pagaram o preço porque: “Eles tinham dificuldades para entender como cumpriríamos nossa meta de crescimento dependendo de contratos de municípios. E também  a gente não conseguiu explicar.” Por que a CAB não conseguiu convencer os investidores em participações minoritárias à apostar em seu projeto de crescimento? Por que para crescer a CAB precisa adquirir concessões municipais e em 2012 teremos trocas de prefeitos?

Outro caso que me chamou a atenção foi o da Coteminas, fundada pelo nosso ex-vice presidente, José de Alencar. O foco do artigo (“Executivo da Coteminas diz que foi “uma honra” emprestar o avião a Lula”, Valor Econômico, 11/4/11, pág. D4) foi o fato do presidente da empresa ter emprestado o jato para Lula ir aos EUA. Foi “ético” usar um bem da empresa para um fim de utilidade dúbia para a empresa e (todos) seus acionistas? O presidente da empresa explicou-se: “sou o acionista controlador e achei que deveria emprestar o avião ao Lula. Não tinha o que avaliar. Quem tem de julgar isso são os acionistas.” Pois é… O que eu achei mais relevante foi uma informação que não teve o merecido destaque no artigo: no dia 8/4 as ações da Coteminas na Bolsa equivaliam a 1/3 do valor patrimonial da empresa! Concorrência dos produtos chineses e alta do algodão? Quem tem de julgar isso são os acionistas… E julgam.

O terceiro artigo relata a “coincidência” da mudança do presidente da Oi e a alta de 5,3% nas ações preferenciais da Telemar, a empresa operacional do grupo (“Mercado comemora mudança de gestão na Oi”, Valor Econômico, 15/4/11, pág. D2). Segundo o artigo, na gestão do ex-presidente, a Oi tentou fazer reestruturações que prejudicariam os acionistas minoritários. O mesmo artigo também cita a queda das ações da Petrobrás, outra empresa onde os acionistas não estão coesos. Por um lado, o Governo Federal, como acionista majoritário, não quer que a empresa aumente o preço da gasolina para não alimentar a inflação, apesar da alta do preço do petróleo. Por outro, os minoritários defendem o que todos os acionistas de empresas petrolíferas buscam: aumentar os preços dos produtos cujos custos estão aumentando. Neste desencontro, quem mais sofre é o valor da Petrobrás, especialmente em um momento de altos investimentos no pré-sal.

O quarto artigo, de um renomado consultor societário, reflete sobre a importância da qualidade da sociedade para a prosperidade de uma empresa (“Como criar, manter e sair de uma sociedade sem brigar”, Valor Econômico, 15/4/11, pág. D12). Segundo o autor, 70% dos empreendimentos não dão certo “em razão de conflitos societários não resolvidos.” Qual é a saída? “A sociedade é tão saudável quanto a forma como administra as suas divergências.” Divergências são um fato da vida. O desafio é como resolvê-las em prol de um objetivo comum. Eu subscrevo a tese que o alinhamento entre sócios é crítico para a prosperidade e sustentabilidade de uma empresa.

Por fim, o quinto e ultimo artigo desta seleção descreve a assembleia da Natura que reuniu dezenas de acionistas. Convidados de forma “ostensiva” em “comparação com as tradicionais publicações de pequenos editais de convocação, muitos acionistas viajaram de longe para comparecer ao encontro. Um “encontro marcado por boas provocações”. Uma senhora de mais de 80 ano pergunta: “quero saber o que estão fazendo com o meu dinheiro”  (“Questionada por Acionistas, Natura revela estratégias”, Valor Econômico, 11/4/11, pág. D5). Acionista e ex-consultora, a senhora questionou acionistas majoritários e seus executivos sobre a estratégia da empresa, em particular sobre os planos para diminuir o longo prazo de entrega dos produtos aos clientes que os encomendaram. Questão muito pertinente, especialmente frente a concorrência que tem lojas próprias e seus clientes não tem que esperar por seus produtos (ex. Boticário). Ao fim, apesar a presença de dezenas de acionistas, dezessete acionistas completaram o cadastramento exigido e somente três votaram. Por que tão poucos votaram? Falta de interesse? Ou confiança construída?

Se você puder e tiver interesse, compartilhe conosco suas experiências (boas ou ruins) na construção e administração de sociedades empresariais.

Um abraço,

Eduardo Luzio

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

2 Respostas to “A Importância da Coesão entre Sócios”

  1. Muito bom, Eduardo!Parabens!

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  1. Como as Empresas Geram (ou Destroem) Valor? | Reflexões sobre valor - 16 de Junho de 2014

    […] https://eduardoluzio.wordpress.com/2011/04/30/o-poder-e-a-falta-de-coesao-dos-acionistas/ […]

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