Como viabilizar uma Central Eólica com energia a R$ 100 / MWh?

No dia 11/4, concluímos a quinta turma do curso “Análise de Viabilidade em Negócios de Energia Renovável“, promovido pelo CTEE (Centro de Treinamento e Estudos em Energia, www.ctee.com.br). A primeira edição do curso foi em 2011 e desde então tive a oportunidade de discutir o desafiante tema de análise de viabilidade de Pequenas Centrais Hidroelétricas (PCHs) e Centrais Eólicas (CEs) com cerca de 150 executivos do setor, desde empreendedores, investidores nacionais e estrangeiros (pessoas jurídicas, privadas e públicas, e pessoas físicas), financiadores, reguladores e consultores.

Na primeira turma, o preço da energia eólica estava em R$ 134 / MWh. No leilão de outubro de 2011, o preço médio ficou em R$ 100 / MWh. Esse preço causou perplexidade a muitos dos envolvidos em energia renovável. Como viabilizar empreendimentos eólicos com um preço tão baixo?

No curso, estimamos o Valor Presente Líquido (VPL) de uma CE de 30 MW com parâmetros de mercados para indicadores operacionais e financeiros, nomeadamente:

  • Fator de capacidade de 44%;
  • Investimentos no EPC de R$ 3,5 milhões por MW de capacidade instalada (resultando num total de R$ 115,4 milhões já incluindo a interconexão);
  • TUST de R$ 7,00 por kW instalado;
  • R$ 16,00 por MWh de despesa O&M;
  • Investimento em overhaul (após o 20o. Ano de operação) equivalente a 40% do EPC original;
  • Inflação de 4% ao ano para indexar o preço da energia e os investimentos;
  • Alavancagem financeira de 65%, com um empréstimo de 2 anos de carência mais 16 anos de amortização a um juros de 8% ao ano;
  • Custo de capital do acionista de 13%.

Em uma primeira simulação, utilizando o preço de R$ 134 / MWh, o VPL para o acionista desta CE foi estimado em R$ 12 milhões. O payback do projeto seria de 19 anos. Ou seja, o acionista precisaria esperar 19 anos para reaver todo o dinheiro investido (R$ 40 milhões).

Na segunda simulação, utilizando o preço de R$ 105 / MWh e um custo nominal de capital do acionista de 10%, o VPL para o acionista desta CE foi estimado em R$ 0. O payback do projeto seria de 30 anos. Ou seja, o acionista precisaria esperar até o fim da autorização para reaver todo o dinheiro investido.

Essa segunda simulação tem implicações intrigantes:

1) a um preço de R$ 105 / MWh o investidor não só precisa ter um baixo custo de capital (10%) ao ano, mas também mais dinheiro para alocar ao projeto (R$ 52 milhões, contra R$ 40 milhões da primeira simulação);

2) se algo de errado acontecer, por exemplo, o fator de capacidade observado não for de 44% e sim 43%, o VPL do acionista não só poderá se tornar negativo em R$ 3 milhões, como também certas obrigações (índice de cobertura do serviço da dívida) junto ao banco financiador poderão entrar em default.

Quando apresentei esses resultados, os participantes do curso ficaram perplexos.

Por coincidência, esta manhã, li uma notícia preocupante no jornal Valor Econômico: “Eólicas brasileiras produzem menos que o previsto” (página B8, 13/4/2012). Segundo a matéria de Rodrigo Polipo, nos últimos 12 meses, 14 dos 20 parques eólicos registrados na ONS geraram menos energia do que o esperado. Em alguns casos, a geração de energia fica 40% abaixo do esperado.

Claro, alguém pode argumentar que vento é volátil mesmo, e provavelmente não ventou muito nos últimos 12 meses. Vamos torcer para ser mesmo um evento pontual, mas esse artigo toca em um profundo temor do investidor em energia eólica no Brasil: a ausência de séries históricas longas da velocidade do vento. Decisões de investimento e financiamento de longo prazo são tomadas baseadas em estatísticas curtas, por vezes de 1 a 2 anos. Se houver algum erro de medição e extrapolação, o impacto na geração de energia da CE é elevado ao cubo.

É também possível que o investidor em CE tenha um custo de capital ainda menor. Mas, haja sinergias estratégicas e operacionais para justificar um custo de capital nominal de 10% ao ano, quando se pode comprar uma nota do Tesouro Nacional (NTNB Principal 150535) que pagará IPCA+5,04% ao ano por 22 anos, livre de risco.

O que você acha sobre o retorno e a viabilidade de se investir em energia eólica a preços ao redor de R$ 100,00 / MWh?

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

3 Respostas to “Como viabilizar uma Central Eólica com energia a R$ 100 / MWh?”

  1. Boa tarde SR Eduado Luzio queria saber em media Quantos Mw/H seria possível produzir um aerogerador, eu sei que depende do vento mais queria saber só uma media mesmo, obrigado!

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  2. Boa Noite Eduardo,
    Estou fazendo um curso de especialização em energias renováveis, geração distribuida e eficiência energética na Poli/USP pelo PECE.
    Na aula sobre Análise de Viabilidade Econômica de Projetos de Projetos de Energia ministrada pela professora Virgínia Parente temos que fazer uma apresentação de um projeto na área de energia.
    Meu grupo decidiu fazer um projeto de um parque eólico.
    Consegui números reais de um projeto de 2009 que ganhou o leilão com um valor de R$150,00 por MWh indexado pelo IPCA.
    Projetamos 3 cenários, levando em conta a produção de energia, onde um teria a produção estimada confirmada, outro teria a produção 20% abaixo do estimado e o terceiro teria a produção 20% acima do estimado.
    Estava estranhando um pouco os números projetados visto que com a produção estimada o projeto tem um payback de 13 anos.
    No cenário otimista o payback seria de 10 anos e no pessimista seria de 19 anos.

    Isso com uma tarifa de alguns anos atrás que hj seria impossivel ganhar um leilão, certo?
    Pensei em trazer a tarifa para hoje com o IPCA, que seria R$ 180,00 por MWh, porém é muito fora da realidade esta tarifa hoje em dia.

    Após ler este seu post percebi que meus números realmente refletem a realidade e que não estou errado em não gostar muito deles..hehe

    Você saberia me dizer qual o payback dos projetos atuais?
    Como está esta questão da tarifa ser tão baixa e ainda o risco ter sido percebido visto que os projetos não estão performando de acordo?

    Após este anos desde que fez este post acredito que muita coisa aconteceu.
    Como estes projetos estão se pagando?

    Abraço,
    Rubens

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    • Olá Rubens,

      agradeço seu comentário e a oportunidade de debater o tema. O preço de R$ 150 é muito bom, concordo que seria dificil ganhar um leilão hoje com estes preços. Qual é o fator de capacidade que vc esta usando? E o investimento por MW de capacidade instalada? O&M?
      Quanto aos projetos atuais, não tenho números “frescos”. Os meus ainda são do ano passado. Mas, ouvi dizer que alguns projetos estão sendo concebidos para o mercado livre, onde a tendência de preços é favorável.

      Um abraço,

      Eduardo Luzio

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