Emprego & Casamento: 2 lados de uma mesma moeda (por Juliana Meyer Luzio)

No dia 19/11/12 no Jornal Valor econômico (página D3) foi publicado um artigo escrito pela Lucy Kellaway com o seguinte título “Casamentos e empregos exigem trabalho duro e amor”. Esse título me chamou a atenção, porém confesso que o artigo passou a semana em cima da minha mesa, onde as vezes eu o olhava, mas o deixava lá e somente após seis dias tive coragem de descobrir o que ela havia escrito sobre o tema. Acho que intuitivamente eu já sabia que não sairia ilesa dessa leitura e aqui estou compartilhando minhas inquietações e pensamentos com vocês.

Kellaway faz uma série de comparações entre emprego e casamento que são no mínimo perturbadoras e que numa primeira leitura parecem até desconexas ou sem lógica, porém quando refletidas e questionadas evidenciam o quanto empregos e casamentos dizem sobre nossa maneira de se relacionar com as outras pessoas, e justamente por isso se tornam coisas possíveis de serem comparadas, porque ambos tornam visíveis nossas escolhas, expectativas e desejos.

Em seu primeiro parágrafo a autora afirma acreditar que “emprego é como casamento. Por um lado é melhor, uma vez que é pago; por outro é pior uma vez que há mais reuniões (…) os dois envolvem um processo de seleção para o qual você (…) tenta parecer mais bonito e inteligente do que realmente é”. Admito que li e reli este trecho algumas vezes e que um certo incomodo em concordar com ela se fez presente, porém não posso negar que haja uma certa verdade. Afinal quem não lembra das coisas que fez/falou para impressionar o entrevistador ou o amado(a)? Quem não ficou pensando sobre que roupa vestir numa entrevista ou num encontro, preocupando-se menos com seu próprio estilo do que com agradar o outro?

Passamos uma grande parte de nossa vida e se bobearmos a vida toda, tentando impressionar o outro. Tentando dar ao outro o que achamos/acreditamos que ele queira e dessa maneira deixamos de questionar o que de fato queremos. Nesse círculo vicioso de querermos sempre estar a altura do desejo alheio os empregos e casamentos fazem a roda girar tornando-se “compromissos pesados ocupando a maior parte do nosso tempo. Neste artigo a autora simplesmente nos faz essa denúncia, assim a queima roupa,  que ambos são compromissos pesados”. Você já pensou nisso? Já se perguntou o que tem ou faz de um emprego ou um casamento algo pesado? Eu nunca havia formulado esse pensamento, nunca havia pensado que as duas coisas que ocupam a maior parte do meu tempo não só são pesadas mas o são provavelmente pelos mesmos motivos.

As respostas que consegui obter após ler, reler, escrever, apagar é que para mim um emprego pesado é aquele com sobrecarga de funções, metas inatingíveis, pares intransigentes, falta de espaço para trocas de experiências e opiniões e falta de reconhecimento. Já um casamento pesado para mim seria aquele em que eu não pudesse ser quem eu sou, que reprimisse meus sonhos e desejos em nome dos sonhos e desejos de meu parceiro. Embora pareçam coisas diferentes, não são porque dizem respeito a termos ou não um tempo nosso, um instante de respiro em que podemos usufruir do que conquistamos e também de um momento em é possível compartilhar o que somos, do que gostamos, o que realizamos.

Tanto os empregos como o(s) casamento(s) que tivermos são pontes necessárias que construímos para alcançar objetivos, realizar sonhos, construir amizades e amores. E quando por algum motivo – seja por excesso de trabalho por metas nunca atingidas, pela falta de reconhecimento ou pela falta de espaço de mostrar o que penso – essas construções não são possíveis os empregos e casamentos se tornam pesados, pois começam a nos impedir de viver como esperávamos.

Mas o artigo ainda está apenas no segundo parágrafo e nele, pelo menos em minha opinião, está a pior frase de Kellaway: “as condições são as mesmas para que eles durem. Antes de mais nada, é preciso fazer uma escolha decente. Depois, partimos para coisas como compromisso, respeito mútuo, esforço e um pouco de falta de imaginação”.  Contudo, para minha sorte eu discordo dessa triste frase.

Primeiro porque trata-se sim de uma escolha, porém uma escolha que ouso dizer passa bem longe do decente, ou alguém tem a ilusão de que nossas escolhas são absolutamente pautadas no racional, no que é melhor para nós? Nossas escolhas fogem da ordem do que é certo, elas são pautadas no que escapa de nossa compreensão e justamente por isso vivemos nos perguntando – por que será que não mudo de emprego? Por que será que me casei com essa pessoa? Como será cheguei até aqui????? Se nossas escolhas fossem racionais e decentes teríamos bem menos perguntas nos assombrando.

Desta maneira as escolhas que rondam a opção por este emprego e por aquele marido/esposa são quase que insondáveis e elas simplesmente acontecem, por isso é preciso estar atento as similaridades entre eles, por que talvez por ai, pelas repetições se torne possível perceber um pouco sobre nós e nossas escolhas. E foi por isso que esse texto me inquietou, porque delatou algo que eu ainda não havia percebido, que tanto o emprego como o casamento é baseado e sustentado pela relação que construímos/criamos com as pessoas em nossa volta e não pelo salário, pela atividade que realizamos, pelo satisfação que sentimos, mas simplesmente pelo desejo de satisfazer aqueles que consideramos importantes para nós.

Para terminar, o que não é o mesmo que acabar com as inquietações, afinal paramos apenas no segundo parágrafo, fico me perguntando o que ela quis dizer com é preciso “um pouco de falta de imaginação” para que eles durem. Alguém pode me ajudar??????

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

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