Carreira, qual a sua? Por Juliana Luzio

 

Aproveitei essa manhã chuvosa de sexta-feira para ler alguns artigos que deixei em minha mesa há algumas semanas, e após terminar a leitura do terceiro não me controlei e aqui estou querendo compartilhar alguns pensamentos e questionamentos.

Em ordem cronológica, mas não de leitura, li os seguintes artigos publicados no Jornal Valor Econômico: “A carreira está interligada a outras esferas da vida”, por Vicky Bloch (13/03/13); “Ainda procuro o emprego dos sonhos”, por Lucy Kellaway (29/03/13); “Entenda qual é a sua “causa” na vida e no trabalho”, Betânia Tanure (03/04/13).

De maneira geral os artigos se mostram preocupados com a construção de carreiras, suas motivações, importâncias e sentidos. Traçam um link entre o profissional e o pessoal e encerram a velha e tão usada frase que diz que a vida profissional não deve ou não pode sofrer interferências pessoais. Claro que esse link tem suas devidas proporções e não estamos falando que o mundo deve parar porque brigamos com o namorado(a)/esposo(a) ou estamos com dor de cabeça ou cólica…

Esse link é um chamado para refletirmos sobre onde queremos chegar com nossas conquistas profissionais,  o que nos leva a escolher uma entre tantas profissões e quais acontecimentos pessoais norteiam esses quereres e escolhas.

Na época da faculdade, tive uma disciplina sobre orientação vocacional que me possibilitou perceber o quanto temos que escolher cedo demais o que ser quando crescer e o quanto essa escolha é influenciada por adultos que são referencias pra nós, mas que não necessariamente trabalham em algo que nos faça sentido. A sociedade imediatista e consumista em que vivemos também colabora de maneira prejudicial nesta escolha, propiciando uma visão míope que nos leva a optar por profissões que garantam um bom retorno financeiro, nos fazendo desejar cargos de CEOs ou CFOs. E a junção desses dois aspectos na construção de uma carreira dos sonhos ou do emprego dos sonhos esta fadada a frustração.

Em seu artigo, Kellaway afirma que os “adolescentes têm pela frente de 50 a 60 anos de trabalho e a melhor maneira de sobreviver a isso é fazer muitas coisas diferentes (…) esses jovens ainda não sabem o quanto os empregos de seus sonhos podem fazê-los infelizes”. A colunista acredita que escolher uma carreira “deveria ser um processo de tentativa e erro” e por concordar com ela me pergunto por que a sociedade e/ou os pais cobram de seus filhos adolescentes que saibam, como se fosse super fácil e simples saber o que eles querem ser. E desta maneira não posso deixar de perguntar: e você que está lendo esse post, sabe porque fez a faculdade que fez? Sabe por que trabalha com o que trabalha? Sabe a importância e o peso de uma escolha num momento em que todo seu corpo e mente estão em plena transformação e que você não é nem criança e nem adulto?

Bloch pergunta em seu artigo: “que ensinamentos devemos transmitir aos nossos filhos no que diz respeito à importância da carreira profissional?” E dá a seguinte resposta: “devemos ensinar aos nossos filhos que tudo tem seu tempo; que todo o investimento realizado nas suas relações terá valido à pena; que eles fazem parte de uma sociedade e que precisam contribuir para este núcleo, independentemente do tamanho da sua ação”.  Para mim essa pergunta e resposta não serve apenas para que os pais pensem sobre como lidar com a carreira de seus filhos, mas para que todos nós nos questionemos sobre a importância de cada profissão, seja ela reconhecida socialmente ou não, propicie ela um cargo elevado ou não. Afinal o que você fará se seu filho virar pra você e falar: eu não quero fazer faculdade nenhuma? Será que isso é o fim do mundo? Ou será que é possível construir uma carreira fugindo dos padrões estabelecidos pela sociedade?

Coincidência ou não, um dias desses meu marido me perguntou se nosso filho não quiser estudar e quiser ser marceneiro? Sem termos lido esses artigos, conversamos um pouco a respeito e concluímos que ele poderá ser o que quiser, marceneiro, pintor, bailarino, executivo… Se será preciso estudar ou fazer faculdade não sabemos, só sabemos que qualquer profissão tem seu valor e para ser bom no que faz é preciso dedicação, aprimoramento e envolvimento. E para que uma boa escolha seja feita é preciso tempo, erros, acertos e espaço para falar sobre ela.

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

6 Respostas to “Carreira, qual a sua? Por Juliana Luzio”

  1. Ju,
    lendo seu artigo me lembrei de uma conversa que tive esta semana com um jovem de 22 anos que está no ultimo ano de economia. Ele estava muito desanimado, pois não sabia o que queria fazer após a formatura. Conversamos por cerca de 1 hora. No meio da conversa ele me disse que gostava muito de futebol e estava, por conta própria, estudando os demonstrativos contábeis do Palmeiras. Meio veio um instalo: por que não se especializar em economia dos esportes? Primeiro, ele gosta. Segundo, é unir o útil ao agradável, pois há poucos economistas com esta especialidade no Brasil. Ele adorou a sugestão!

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    • Que bacana que ele teve esse momento de diálogo com você e que bom que você soube escutar o que ele estava dizendo. Porque lendo seu relato por um momento me pareceu obvio que ele pensasse em economia dos esportes, mas quando parei pra pensar no que relatou me dei conta de como é difícil conseguir ver quando estamos míopes.
      Torço pra que ele arrisque esse passo e encontre seu caminho, ou pelo uma direção. Muito obrigado por compartilhar sua experiência!!!

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  2. Ju,

    Penso que a sociedade onde vivemos obriga as crianças de ”boa familia” ter uma responsabilidade muito grande, me refiro aos eternos horários de estudo, incluindo extra escolares, idiomas, lições, etc. Vivem na mesma pressão que um adulto, tem que tirar boas notas, tem que fazer idiomas, tem que ter o tempo 100% ocupado, tudo isso para ”ter um futuro melhor”, mas o que é um futuro melhor?¿? Qual é a frustração desses pais que acham que seus filhos são máquinas?¿ Por acaso, desde quando, o brincar não faz parte da vida, de aprender?¿
    A sua conversa com o seu marido, me fez lembrar da mesma conversa que tivemos meu marido e eu, a resposta é a mesma, se quer ser marceneiro, pedreiro, eletricista e está bem assim, porque não?¿? Porque todos querem ”doutores” e afins?¿? Como pais nós só pensamos em educar nossos filhos para que sejam pessoas de bem, responsáveis, que vivam, viagem, sejam felizes com a profissão que escolham.

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  3. Eu não sei como é ai na Espanha, mas aqui em sampa a criançada tem agenda e celular, fazem festas de aniversário em salões de beleza, enfim são pequenos adultos e não mais crianças. Regredimos para o tempo em que infância não existia e ainda dizem que evoluímos.
    Acredito que o brincar seja condição para o amadurecimento, aprendizado e saúde mental de qualquer pessoa, inclusive dos adultos. E acho fundamental que aprendamos a não responder a toda demanda da sociedade.
    Tudo tem seu tempo e deixar que cada um encontre o seu ritmo para fazer escolhas é fundamental. Esperar ou cobrar que uma criança ou adolescente saiba o que quer ser quando crescer é não respeitar a fase em que ela esta vivendo.
    Acho também que sempre precisamos ter em mente que nenhuma escolha é definitiva e que a qualquer tempo, qualquer um de nós pode mudar de profissão, de planos e de direção. Abraços e adorei seus comentários.

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  4. Ju e Edu,

    Adorei o artigo da Ju e todos comentários, curti muito. E me lembrei que eu não me decidi por determinada profissão, fui no rolo compressor da vida, pois comecei a trabalhar aos 16 anos. Na época que terminei o colegial (atual ensino médio), prestei vestibular pra Faculdade mais perto e mais acessível – fiz Ciências Politicas e Sociais. O curso serviu para desenvolver meu olhar para as diversas possibilidades que a vida me apresentou. E a realização profissional se deu porque cresci, me desenvolvi e procurei fazer sempre o melhor que podia. Ganhei respeito e progredi. Isso mostra que as possibilidades são muitas, mas o sucesso sempre vai depender da dedicação, do empenho e do respeito que você cultivar.

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  5. Oi Eduardo, aqui onde eu moro eu separo pelas gerações, me explico, meus filhos maiores (14 e 12 anos) viveram e vivem muita pressão social, a geração deles é altamente consumista e roça a futilidade, a grande maioria tem iphone, ipad, ou que for, (os meus tem cel. mas não querem levar à escola, nem quando vão a casa de ninguém e a resposta é sempre a mesma – Para que se lá tem telefone, mãe?¿?) Eles vivem em um mundo paralelo, onde eu quase exijo que brinquem, rsrsrs, quando o resto está “trabalhando” para o futuro, apenas sabem brincar, o egoísmo e egocentrismo é cortante.
    Já a geração da idade do meu pequeno (6 anos) está mais relaxada, mais preocupada com o tempo deles de brincar e se achar no próprio espaço, ser eles mesmo! Aqui as festas na época dos maiores eram tipo enlatadas, as do pequeno são no parque ao lado da escola com uns lanches, um bolinho e já está! Ninguém está preocupado em ”mostrar” nada para ninguém. Não sei se foi a crise que fez com que as pessoas colocassem os pés na terra ou que simplesmente percebessem que eles necessitam tempo e espaço para evoluir. Um abraço, espero vocês na próxima visita a terras hispanas!

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