Desafios da Política Industrial Ontem e Hoje

Na semana passada, publiquei um post relatando minha satisfação e tristeza ao acordar pela manhã, abrir o jornal o Valor Econômico, e me deparar com um artigo que citava um estudo meu com Shane Greenstein publicado há 18 anos nos Estados Unidos. Em anexo a integra do artigo citado no Valor: Measuring the Performance of a Protected Infant Industry – The Case of Brazilian Micro-Computers

O artigo com Shane, então meu orientador, foi fruto de minha tese de doutorado. A tese virou um livro (“The Microcomputer Industry in Brazil: The Case of a Protected High-Technology Industry”, Eduardo Luzio), um artigo (em anexo ao post) e o capítulo de um outro livro (“The Handbook of Latin American Trade in Manufactures, editado por Montague Lord).

Eu nunca traduzi minha tese para o português, pois quando eu voltei para o Brasil, em 1995, o tema “reserva de mercado para informática” parecia estar enterrado definitivamente. Pensei: “quem vai querer saber disso hoje em dia?”. Essa constatação tinha um lado bom: o Brasil havia abandonado uma política industrial ineficaz que atrasou a competitividade do país entre 1977 e 1992 e impôs aos consumidores produtos eletrônicos caros e de qualidade limitada. “Que bom, acabou”, pensei na época. Erro meu… a política de reserva de mercado acabou, mas o desafio de desenvolver uma indústria nacional competitiva não!

As “políticas industriais” atuais no Brasil se baseiam em: requisitos de “conteúdo nacional” mínimos, incentivos tributários, empréstimos subsidiados por agentes governamentais (BNDES, FINEP,…), restrições à importações, requisitos de investimento mínimo em P&D (ex. setor elétrico). Resultados? Um exemplo: em 2012 o Brasil obteve o registro de 196 patentes, a Índia 1.691 e a China 5.172 (fonte: USPTO, citado em “Nas patentes o Brasil avança sem decolar”, de Roberto Nicolsky, jornal Valor Econômico, 15/10/13, página A14). Lembrando que essas patentes não necessariamente representam inovações, mas sim melhorias em processos já utilizados. Ou seja, a Índia e a China não estão crescendo por inovações disruptivas mirabolantes, mas sim melhorando o que já existe.

Patentes são barreiras de entrada. Barreias de entrada são vantagens competitivas valiosas.

Na época da reserva de mercado, vivíamos uma hiperinflação e não havia financiamentos de longo prazo. Nossa infraestrutura e sistema tributários não eram melhores do que os atuais. O Governo Federal não era menos intervencionista. Nossos cientistas e tecnólogos não tinham acesso à computadores modernos e à internet de banda larga. Ok, sofremos com um câmbio valorizado, mas, hoje, temos mais condições para elaborar políticas industriais mais sofisticadas e possivelmente mais eficientes, incluindo índices críticos de performance (KPIs).

Competitividade não é só estradas e portos eficientes e energia barata. É capacidade de aprimorar processos e produtos.

Brealey & Myers tem uma frase que eu adoro: “uma empresa é uma coleção de projetos”. O valor de uma empresa é o valor de seus projetos, cada projeto com seus respectivos binômios risco / retorno. Um país também é uma coleção de projetos. Os projetos de uma país irão definir sua capacidade de crescer, gerar empregos, distribuir (ou concentrar) renda. Quais são os projetos para o Brasil? Etanol x petróleo do pré-sal? Energia renovável x térmicas à carvão? Commodities agrícolas e minerais com preços competitivos, mas com baixo valor agregado? Automóveis nacionais, mas à preços / qualidade exorbitantes (quando comparados com outros países)? Bens de consumo importados da China? Financiamento de longo prazo subsidiados para poucas grandes empresas?

Temos muito o que fazer se pretendermos ter um país de valor.

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

Uma resposta to “Desafios da Política Industrial Ontem e Hoje”

  1. Como você é didático!! Consegui entender…

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: