Superando os Revezes da Vida com as Diferenças: “Ferrugem e Osso”

Eu e minha esposa tivemos a oportunidade de assistir ao filme francês “Ferrugem e Osso” que dizem ser a versão feminina de outro francês que fala de superação: “Os Intocáveis”. “Ferrugem e Osso” é inusitado e ao longo de todo o filme, ficamos nos perguntando como seria seu fim. Trata-se da estória de um homem e uma mulher que buscam se superar em momentos de extrema dificuldades. Seus caminhos se cruzam, descruzam e existe uma sútil relação de “parceria” que os mantém unidos e fortes.

De um lado, Stephanie, uma bela adestradora de orcas, perde as duas pernas num acidente de trabalho. Do outro, Ali, fã de vale tudo, um marginal que pula de emprego em emprego e que não pondera sobre as consequências de suas ações.

Stephanie é sensível, exibicionista, e entra em depressão após perder as pernas. Ali é força bruta, insensível, “operacional”, como ele mesmo se define. Os pontos de apoio de Ali são a irmã e o filho, um garotinho sensível de 6 anos (?) que adora cachorros.

O filme começa com Ali em seu ponto de baixa: sem dinheiro para alimentar o filho, os dois vivem dos restos de comida dos outros (não há sinal da mãe do menino no filme). Comete até pequenos furtos. Os dois viajam para o sul da França para pedir abrigo a irmã de Ali.

Stephanie, antes do acidente, esta em seu ponto alto: lidera a equipe que faz shows de orcas em um grande parque de diversões. Os dois se encontram, por acaso, em uma boate, onde Ali trabalha como segurança e Stephanie se envolve em uma briga. Deste primeiro encontro, não se espera nada. Ambos vivem em mundos diferentes. Não há conexão aparente e os dois seguem suas vidas.

Após o acidente, Stephanie, depressiva e só em seu apartamento, por alguma razão, liga para Ali. Os dois vão a praia. Ali a convida para um mergulho. Sem as pernas, ela hesita, mas acaba indo nadar. Ali a deixa nadar sozinha no mar, com a sua própria força. Ela redescobre o prazer de estar no mar. Redescobre-se.

Os dois continuam se encontrando casualmente. Stephanie vai saindo da depressão e retoma sua vida. Ali volta a treinar boxe e começa a participar de lutas clandestinas, onde ganha dinheiro, sempre ao lado de Stephanie.

Stephanie ganha coragem e força com Ali para retomar sua vida. Com próteses, volta a andar. No coto da perna direita, tatua a palavra “esquerda”. No coto esquerdo, tatua “direita”. A orientação mudou por definitivo.

Ali ganha coragem e força para vencer adversários cada vez maiores e desafiadores. Ali é a simplicidade da vida, é força bruta, é o aqui e agora. Stephanie é sensível, criativa, emotiva e se apaixona por Ali. Cada um com sua sabedoria começam, a trabalhar juntos: Ali lutando e Stephanie gerenciando as lutas e as apostas.

Entretanto, ainda persiste um vão entre eles: Ali parece se colocar sempre em primeiro lugar. Para ele, Stephanie é apenas uma mulher que lhe convém. Seu filho é um peso, um menino chorão. Suas atitudes impensadas levam a demissão de sua irmã, que o expulsa de casa. Ele não se abate. Deixa seu filho com a irmã, não se despede de Stephanie e simplesmente parte para o norte da França, onde começa a treinar box em um grande centro esportivo. Os caminhos de Ali e Stephanie se separam.

O tempo passa e Ali retoma o contato com a irmã e seu filho. Em uma visita do filho, Ali vive uma situação de extrema dor, quando por pouco não o perde afogado em um lago gelado. Para salvar o filho submerso Ali fratura as duas mãos ao quebrar o gelo. O menino passa horas em coma, entre a vida e a morte. Neste momento de extrema solidão, impotência e dor, Ali liga para Stephanie. Força física não basta para enfrentar este desafio.

Há 27 ossos na mão de uma pessoa. Ali quebrou todos eles no gelo do lago. Estes ossos nunca se reconstituem por completo. Ali sempre sentirá dores agudas nas mãos. Mas, ao lado de Stephanie e de seu filho, voltou a lutar, desta vez, em campeonatos oficiais e não em lutas marginais.

Achei este filme muito melhor do que “Os Intocáveis”. Mais real, e portanto, mais poderoso. “Os Intocáveis” tem cenas cômicas. É um filme que consegue nos divertir. “Ferrugem e Osso” não é para qualquer um. “Ferrugem e Osso” mostra como nossa vida é frágil. O ferro enferruja. O osso quebra. Como precisamos um do outro. Como a complementação das diferenças traz poder. O poder de transformar nossas vidas. O poder de tornar nossas vidas mais suportáveis, especialmente naqueles momentos difíceis, quando achamos que não daremos conta, quando estamos prestes a desmoronar, a sucumbir.

Viva as diferenças!

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

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