Alunos e Professores. Professores alunos.

A relação aluno professor é muito interessante. Não canso de me surpreender e aprender.

Desde 1998, dou aula de finanças corporativas em cursos de MBA. Nestes anos, tive a oportunidade de lecionar para uns 800 alunos ou mais, perdi a conta.

Os MBAs brasileiros são cursos de especialização, onde a grande maioria dos alunos trabalham de dia e estudam a noite. Há jovens recém formados, profissionais mais velhos que buscam se atualizar e até empresários em busca de um melhor entendimento de suas empresas.

Nestes 15 anos, já deu para perceber que há pelo menos 5 tipos de alunos:

“Consumidores”: aqueles que fazem um MBA para ter um diploma, ponto. O diploma é o fim. Os meios para chegar a este fim podem incluir colar na prova, plagiar no TCC, e outros. São alunos que quando tiram uma nota baixa, se revoltam. Criticam o professor. Comportam-se como se estivessem comprado um liquidificador na Casas Bahia e este apresentasse um defeito. Como tais, estes alunos saem do curso com pouco mais de conhecimento do que entraram.

“Vaidosos”: são alunos que acreditam saber muito, por vezes mais do que o professor. Quase toda turma tem pelo menos um. Querem tirar 10 na prova e “não aceitam” nada menor que isto. Geralmente, seus colegas fazem piadas sobre eles. Estes alunos sempre estão fazendo perguntas capciosas ao professor, tentando mostrar seu conhecimento e o desconhecimento dos outros. Por vezes, esses alunos são bons mesmo, mas há excessos nesta postura que os levam a errar.

“Turistas”: são aqueles que não sabem bem porque estão fazendo um MBA. Alguém paga seu curso, mas sua postura na sala de aula é alienada e, por vezes, desrespeitosa. Quando podem, passam a aula na internet, ou conversando com o colega ao lado (comprometendo a atenção dos vizinhos). Geralmente, são reprovados (por falta e/ou nota) ou desistem da matéria.

“Guerreiros”: são alunos com formação não financeira e que tem grande dificuldade em acompanhar as aulas. Vão mal nas provas, mas não desistem. Querem aprender. Tem humildade e interesse genuíno. Pedem ajuda ao professor e aos colegas. Seu esforço comove. Para mim, como professor, sempre fico feliz quando encontro um “guerreiro”. Estes são poucos. Tenho certeza que estes farão diferença em qualquer coisa que façam.

“Genuínos”: são alunos comprometidos, que realmente aprendem e apreendem. Dedicados, suas interessantes perguntas fazem o professor pensar. Ensinam o professor, enquanto aprendem. Estes alunos conseguem extrair muito valor de um curso de MBA. São mais que alunos, são companheiros.

Que tipo de aluno você é (ou foi)?

Lembro-me de uma turma do MBA FIPE-USP que tive há anos, Na média, a classe foi mal em uma prova intermediária. Dei uma “bronca”, com um discurso do tipo: “vocês fazem parte de uma elite que tem acesso a educação, precisam estudar mais, etc.”. “Mario”, um aluno, mais velho do que eu, pai de família, que nas aulas se comportava como um “vaidoso” levantou-se e começou a gritar comigo: “quem é você para falar assim conosco? Trabalho o dia todo e venho para cá estudar ao invés de ficar com meus filhos e minha esposa. Agora, meu pai esta morrendo na UTI e eu estou aqui.” Com calma, respondi imediatamente: “primeiro, não precisa gritar, eu ouço bem. Segundo, a vida é difícil mesmo! O que você quer ensinar aos seus filhos? Terceiro, vá já para o hospital ficar com seu pai”. Ele foi. Voltou e terminou o curso com sucesso.

Confesso que num primeiro momento fiquei chateado com este aluno, pois ele gritou comigo. Afinal os professores também tem sua vaidade. Nos tratamos de maneira fria, mas profissional até o fim do curso. Uns dois ou três anos depois, encontrei este mesmo aluno na FIPE, fazendo outro curso. Ele veio me cumprimentar com um entusiasmo legítimo, que me surpreendeu. Eu perguntei: “o que você esta fazendo aqui?”. “Outro curso”, respondeu. E complementou: “quero aprender. Também quero mostrar aos meus filhos que a vida é dura, que precisamos investir em nós mesmos, para sermos profissionais melhores e atualizados.”

Dedico este post a Mario e a todos os alunos que buscam o conhecimento, dentro de suas possibilidades e que me ajudam, como professor, também buscar novas possibilidades.

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

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