Como educar uma pessoa?

Fábio Porchat me surpreendeu esta manhã. Além de talentoso humorista, Fábio em sua coluna semanal no Jornal O Estado de São Paulo, faz interessantes provocações. Começou contando como era chato estudar física, química,… no colégio. Coisas “inúteis”. Quando indagava seus professores do porque aprender tantas coisas “inúteis”, a resposta era: “cai no vestibular”. Hoje, ator de renome, Fábio confessa que sente falta de não ter aprendido sobre essas coisas inúteis: “afinal qualquer profissional tem de entender tudo o que acontece em torno de seu trabalho.”

“Incentivar o aluno a entender, a pensar, se interessar, é diferente de fazer o aluno estudar. Estudar é chato. Ninguém gosta de estudar. A gente gosta é de saber (…) Porque o aluno não precisa de respostas, ele precisa de perguntas. Ele precisa querer saber. O desafio do professor é fazer uma mitocôndria instigar alguém.” (“Ensina-me a viver”, 2/6/2014, pág. C4, Jornal O Estado de São Paulo).

Ontem a noite, estava assistindo o primeiro episódio da série “Breaking Bad” (Ruptura Total (título em Portugal) ou Breaking Bad: A Química do Mal (título no Brasil). O protagonista, um genial e criativo químico que optou por lecionar (química) em uma escola colegial, começou sua aula instigando seus alunos: “O que é química?” Um aluno rapidamente respondeu: “é a ciência que estuda compostos químicos”. Após uma pausa oportuna, o professor instiga: “química é a ciência que estuda a transformação.” Ai, seu eu tivesse tido um professor como aquele! Teria amado química. Talvez não teria me formado economista, sei lá. Mas, este é o grande valor de um professor: fazer o aluno querer saber!

Fiz um curso sobre didática no Insper em março. Primeiro, o que é didática? “A palavra didática vem da expressão grega Τεχνή διδακτική (techné didaktiké), que se pode traduzir como arte ou técnica de ensinar” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Didática).

Arte ou técnica? Eis a questão!

Dou aula há anos, em várias faculdades, e nunca tinha feito um curso sobre didática. Em 1990, quando fui dar aula de “Introdução à Economia” na Universidade de Illinois, eu e meus colegas assistentes de professor tivemos uma semana inteira de curso “preparatório”: basicamente procedimentos de como dar notas, controlar faltas e evitar comportamentos que poderiam ser entendidos como assedio sexual. Ou seja, NADA sobre didática.

Vinte e quatro anos depois, eis o curso do Insper: “Aprendizado Centrado no Aluno”. O que isso quer dizer? O coordenador, Irineu Gianesi, com maestria resumiu: é saber se colocar no lugar do aluno.

Mas, o que isso quer dizer?

Como preparação para o curso tivemos de fazer algumas atividades prévias, dentre elas assistir um vídeo do Prof. Lee Schulman da Universidade de Standford (http://en.wikipedia.org/wiki/Lee_Shulman) no YouTube (viva o YouTube! Ferramenta maravilhosa! https://www.youtube.com/watch?v=v4OBdYhiX9A):

“Ensinar é ouvir e aprender é falar” (“teaching is listening and learning is talking!”).

O aluno precisa se expor. O aluno precisa ter coragem para ser proativo em sua educação. Eu acredito que não há educação passiva. Educação passiva é outra coisa: é doutrinação. Lavagem cerebral, que produz “tijolos nos muros”, como canta Pink Floyd (https://www.youtube.com/watch?v=YR5ApYxkU-U ).

Ao mesmo tempo, o professor precisa estar aberto a novas ideias, ser flexível e estratégico. O professor também precisa estar disposto a sair de sua zona de conforto e se arriscar, experimentar novas técnicas, estar aberto ao debate com os alunos, ter paciência para ouvi-los, entende-los, se colocar no lugar do aluno e, de alguma maneira, promover seu interesse.

Como o Brasil pode se tornar um país melhor, mais justo, uma economia mais forte, independente do preço dos commodities? Com educação. Educação que habilite seus cidadãos a pensar, a empreender. Sim, o processo de educação também é um empreendimento, cujo  líder pode ser, provisoriamente, um bom professor, mas quem constrói o empreendimento tem de ser o aluno!

Como ser um solucionador de problemas criativo (vale tanto para alunos como para professores)? Schulman recomenda: é preciso ter coragem para cometer erros. Os chineses são educados para não cometer erros, para serem perfeitos. Mas, erros não são só permitidos, mas desejáveis! Não há como ousar sem errar. Não há como se educar sem errar. Entretanto, “perdoe, mas não se esqueça”. Aprenda a usar os erros produtivamente.

O curso “Aprendizado Centrado no Aluno” teve 6 horas, e saí com a mesma pergunta que entrei: o que quer dizer isso? Como bom professor que é, Irineu não nos deu uma resposta pronta. Fez uma provocação. Passou, implicitamente, uma “lição de casa” para nós: pense sobre isso, busque suas próprias respostas.

Estou a busca. Da arte e da técnica.

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

9 Respostas to “Como educar uma pessoa?”

  1. luis angelo leal pouchain Responder 9 de Junho de 2014 às 6:34 PM

    Caro Luzio, outro dia ouvi alguém comentar: se declarar professor é até “queimar filme”. Eu sei, pois sou formado em história e sei o “buraco” em que professor está em nosso país. Mas enfim, creio que é um sacerdócio do qual não podemos ou não conseguimos fugir. Estou te escrevendo primeiro porque gostei dos seus dois artigos que li, o que é educar e sobre Michael Milken. Estou pensando seriamente em fazer meu mestrado sobre a crise financeira de 2008. Portanto, história e sistema financeiro dá para entender o tamanho da dificuldade que tenho pela frente. Seria possível manter-mos algum contato sobre dúvidas, sugestões de leitura ou esclarecimentos sobre os termos comuns usados no sistema financeiro? Tenho alguns professores da UFF dispostos a ajudar, estou ainda lendo e alinhavando algumas ideias. Obrigado

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    • Luis, agradeço seus comentários! A crise de 2008 é muito interessante mesmo. Li alguns livros e posso te indicar. Estou fora do escritório, mas te mando amanhã. Fico a disposição para ajudá-lo. Aproveito para informar-lhe que recentemente passei no concurso para professor de Economia Financeira na FEAUSP. Portanto, desta posição, também posso ajudá-lo no seu mestrado. Um abraço, Eduardo.

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      • Luis Ângelo Leal Pouchain 26 de Agosto de 2015 às 5:09 PM

        Caro Luzio, já tinha me esquecido completamente este nosso contato. Logo depois deste, descobrimos um sintoma estranho em minha mãe. Entre exames, internações e o falecimento dela foram pelo menos sete meses. Espero retornar nosso contato, e se estiver interessado, te mando meu projeto quase pronto. Pretendo me inscrever no Programa de Politica Econômica Internacional da UFRJ. Vou acompanhar mais assiduamente seu blog.
        Você mandou as indicações?
        Obrigado, Um abraço, e até a próxima.

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      • Luis,

        sinto muito sobre sua mãe. Acabei não te mandando a lista de referências sobre a crise de 2008, mas em tempo, aqui vai: 1) Michael Lewis, The Big Short; 2) Castelo de Cartas, 3) Dinheiro dos Tolos (Fools’Gold). Acho que há traduções para o português de todos estes livros, mas eu os li em inglês. Abs

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  2. Luis Ângelo Leal Pouchain Responder 28 de Agosto de 2015 às 9:49 AM

    Eduardo
    Eu li Ouro dos Tolos, arrepiante, parece Holliwood com O Lobo de Wall Street. Li Krugman, A Crise de 2008, Kindleberger,Manias Panicos e Crises, Wessel,Os Bastidores da Crise. Vou começar Ascensão do Dinheiro do Ferguson. O meu propósito é revelar a falta de ética, e a roubalheira de Wall Street com a leniência do governo e a chancela das faculdades norte-americanas de economia. Como o sistema financeiro se locupleta, e depois que a “vaca foi para o brejo” o governo vem socorrer os banqueiros milionários.
    Uma vez um estudante de economia me perguntou se o que eu queria era um estado paternalista. Queria poder perguntar a ele agora se o estado paternalista é exclusivo para os banqueiros? Pode fazer algum algum comentário? Em tempo, o Titulo da minha tese é exatamente este, Castelo de Cartas.
    Obrigado pelas dicas

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  3. Luis Ângelo Leal Pouchain Responder 2 de Setembro de 2015 às 9:23 PM

    Alô Eduardo, sou eu de novo. Já li o post, para variar altamente esclarecedor. A “democracia” da plutocracia bancária. Mas o quero comentar agora, é que você não tem contra-argumentado o que escrevo. Você não está me ajudando ou me orientando deste modo. Outra coisa; é que se eu fizer um comentário em um ou outro post ou link, vou acabar perdendo a conexão, pois tenho lido, e ainda vou ler muita coisa do que escreve.
    Eduardo, li em algum lugar a frase; A economia é algo importante demais para ficar nas mãos de economistas. Já leu algo parecido, ou sabe de quem é a frase? (Acho que li numa veja)
    Obrigado, um abraço, e até a próxima
    Luis

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    • Olá Luis,

      realmente não tenho contra-argumentado com você, pois concordo com a essência de suas colocações. Aparentemente, compartilhamos valores e idéias. Agora, vamos esclarecer um ponto: usar a palavra “orientação” para um professor universitário como eu tem um significado importante e eu não sou seu orientador. Para oriente-lo é preciso haver um vínculo institucional.Obviamente, isso não impede que eu comente suas idéias ou lhe sugira leituras, mas de uma maneira informal e sem compromissos acadêmicos. Está bem assim?
      Quanto a frase citada, não sei seu autor. Já a ouvi e não concordo com ela. Acho que os economistas são importantes, inclusive há um artigo muito legal no Valor Economico de hoje de um prof. de Harvard (pág. A13) sobre os economistas. Acho que a política econômica deveria estar a cargo de um grupo interdisciplinar (sociólogos, políticos, empresários, até sindicalistas…) mas sob a liderança de economistas. Um abraço, Eduardo

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Trackbacks/Pingbacks

  1. Por que ser Professor? | Reflexões sobre valor - 5 de Junho de 2015

    […] Num país que não valoriza o professor, é particularmente desafiador sê-lo, já relatado neste bl…. A clássica piada é um símbolo deste desdém: “você é professor? Mas, você trabalha também?” Como se educar alguém, ensinar alguém a pensar, transmitir informações e valores, não fosse um trabalho. E como dá trabalho… Especialmente no mundo de hoje onde não se valoriza o esforço, a disciplina, mas sim os ícones do sucesso rápido e aparentemente sem muito esforço. […]

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