Quem é responsável pela sua prosperidade?

“A verdade é filha do tempo e não da autoridade”

Galileu Galilei.

“Nosso mundo é elétrico!”

Wärtsilä

Essa foi a capa da Veja em 6/6/2001. Há quase 13 anos atrás.

Veja 2001

Se tivermos sorte, podemos estar prestes a reviver esse drama: o racionamento de energia elétrica. Sim, é isso mesmo, sorte, porque azar mesmo será se tivermos de enfrentar períodos desligamento de energia elétrica.

O setor elétrico é um dos mais estratégicos para um país. Você conhece alguma atividade econômica que não requeira energia elétrica? Talvez vender água de coco na praia (sem gelo)!

Energia barata, confiável e de qualidade (sem flutuações de carga) é crítica para a competitividade de uma empresa, de um país. Portanto, é crítica para geração de empregos, para o custo de vida. É crítica para o bem estar e segurança da população, que pode desfrutar das comodidades de manter alimentos refrigerados, se comunicar, se divertir, tratar de sua saúde!

Posto isto, é assustador o momento que estamos vivendo no setor elétrico brasileiro.

Entre 6 e 7 de maio, participei do 11o. ENASE (Encontro Nacional de Agentes do Setor Elétrico) no Rio de Janeiro com mais de 750 profissionais do setor. Ouvi de vários participantes que desde 11/9/2012, o setor elétrico vive um clima tão tenso. Edvaldo Santana (professor da UFSC, ex-presidente da ANEEL), que começou sua carreira no setor em 1975 resumiu: “jamais o setor elétrico foi colocado tanto a prova, inclusive físico”.

Em resumo, os problemas são:

  • Evento Extremo. Em jan./fev. deste ano tivemos um “evento extremo”, uma severa falta de chuvas combinada com altas temperaturas no SE/NE. Foi a pior seca desde 1931. As principais bacias hidrológicas apresentam déficits significativos e não há previsão de chuvas suficientes em maio. A seca reduziu os volumes dos reservatórios das grandes hidroelétricas à níveis perigosos. Esse déficit foi agravado pelo calor intenso do 1o. trimestre que aumentou a demanda por energia (ar condicionado).
  • Dependência da energia das hidroelétricas. A maior parte de nossa matriz energética é baseada nas energias das águas (77% em 2012). Com menos agua, a capacidade de geração de energia das hidroelétricas do SE/NE está limitada. É física:

Barragem Newton

 

  • Baixo “Excesso” na Oferta x Fatores de Fricção. O Governo admite que a “hidrologia [atual] é muito pior do que 2001”. Entretanto, defende que a capacidade instalada cresceu mais que o consumo, e cresceu diversificada (térmicas, bagaço, eólica,…). A expansão das linhas de transmissão (LTs) foi o dobro. “Em 2001 tinha energia sobrando (2,6 GW) e hoje tem 5,8 GW”. Aumentou-se a capacidade de intercambio de energia com as regiões Sul e Norte (superavitárias em geração de energia x demanda local). Já técnicos da iniciativa privada insistem que existem “fatores de fricção” (ex. assoreamento dos rios) que afetam os modelos computacionais que calculam a tal da “energia sobrando”. Para eles, pode não haver “energia sobrando” e insistem que para evitar problemas em 2014/15, é preciso racionar energia já. Resultado da enquete entre os participantes do ENASE sobre o risco de racionamento 2014/15: 54% alta, 34% Média, 13% baixa. Independente do risco do racionamento, o Governo deveria implementar medidas para racionalizar o uso da energia? 90% votou sim.
  • Menor Capacidade de “Reservar” Energia. Em 2001, os reservatórios de água das hidroelétricas tinham 7 meses de estoque. Em 2014 deve cair para 3,7. Reservatórios são anuais para esvaziar e plurianuais para encher! Reservatórios funcionam como caixas d’água interligados por linhas de transmissão. Cresceu a potencia instalada de gerar energia, mas não a capacidade de armazenamento. Ou seja, estamos acionando as usinas térmicas, com um custo de energia muito mais caro (daremos mais detalhes a diante).
  • Racionamento ou Desligamento? Em ano eleitoral, com a população incomodada com a inflação, o Governo reluta em ajustar o preço da energia ou considerar o RACIONAMENTO! Boa parte dos consumidores esta alienado destas questões e do risco que o país esta correndo. Um palestrante ironizou o marketing político: “se não gosta da palavra “racionamento”, use “contingenciamento””.
  • Viva o El Niño! Em suma, a posição do Governo pode ser resumida assim: “a situação é crítica e a principal causa foi o clima”. Mas, para a nossa sorte, o Governo prevê a ocorrência do El Nino durante o inverno / primavera de 2014 que poderá produzir mais chuvas e temperaturas mais baixas no SE. Brincadeira! Agora a 7a maior economia do mundo esta refém do clima!

Mas, não é só o risco do racionamento (e desligamento) que enfrentamos. Provavelmente, teremos de pagar muito mais pela energia em 2015:

  • Custo da Energia Térmica. Desde a última crise climática (em 2001), quando corremos o risco de apagão, que custou a eleição da presidência da república ao PSDB, a matriz energética mudou. Realmente, capacidade instalada aumentou e se diversificou. Passamos de uma matriz hidroelétrica para hidrotérmica, com a participação crescente de térmicas a gás e diesel. Essa mudança reduziu a dependência do setor elétrico aos humores de São Pedro. A má notícia é que o custo da energia térmica, no Brasil, é de R$ 1.000 por MWh contra R$ 70 da hidro. Com os problemas causados pelo “evento extremo”, no mercado livre de energia o preço da energia alcançou um recorde histórico: R$ 822 por MWh. Para comparar, o preço médio entre 2002 a 2012 foi de R$ 69 por MWh. Enquanto isso, na França, os grandes consumidores industriais pagam 40 euros por MWh (cerca de R$ 120) de energia nuclear, que é considerada uma fonte cara. Nos EUA, no Vale do Rio Teneesee há energia a US$ 30 MWh (cerca de R$ 100). E não é só preço a questão: e o impacto ambiental de queimar diesel para gerar energia?
  • Desequilíbrio Financeiro nas Distribuidoras: prepara-se, vem aí aumentos na conta de luz. As distribuidoras de energia tem comprado parte de sua energia a R$ 822 e vendido aos seus clientes por R$ 110! Nos contratos de concessão se prevê que quando há alterações significativas nos custos das distribuidoras (por ex. comprar energia a R$ 822 e vender a R$ 110), a distribuidora tem direito a revisão tarifaria extraordinária. Em 2015, haverá o 4o. ciclo de revisão tarifaria que deverá restaurar a rentabilidade das distribuidoras (no 3o. ciclo houve uma queda de 21% no lucro operacional (EBITDA) das distribuidoras). Imaginem o ajuste que virá em 2015!

Qual a saída? Afinal não se trata apenas de uma questão momentânea. É estrutural: O consumo per capta de energia no Brasil é de 2.500 kWh / ano enquanto no mundo a média é de 6.000, na Alemanha é de 15.000, EUA é de 20.000. A demanda no Brasil cresce 5 GW por ano. É preciso continuar investindo mais em geração e transmissão de energia. Investir em geração distribuída de energia, em hidroelétricas com reservatórios,… Mas, há empreendedores interessados em viabilizar estes investimentos?

  • Risco Regulatório mais Alto. Uma enquete entre os participantes do ENASE perguntou sobre a percepção do risco regulatório para 2014/19. Resposta: 75% votaram em “aumentou”. Esse desconforto com as “regras do jogo” não é de agora. A famosa Medida Provisória 579 editada em 11/9/2012 foi um marco negativo no setor. Foi uma “bomba de Hiroshima”. Nessa MP, o governo definiu as regras de renovação das concessões (geração e transmissão de energia) que estavam para vencer. A gritaria foi intensa. Para os investidores privados, a MP 579 foi um exemplo de “como não se deve fazer”. Eles argumentam que o Governo não promoveu discussões prévias e que as novas regras causaram uma abrupta redução de receitas em empresas geradoras e a paralização de investimentos! O problema ainda é mais grave se considerarmos que há R$ 260 bilhões investimentos previstos para 2013/22. Mas, para estes investimentos acontecerem, é preciso ter segurança jurídica, previsibilidade das regras. Respeito aos contratos e não intervenção excessiva (“intervenção é para regular e não mudar regras já contratadas”). Uma palestrante foi enfática: “O setor está péssimo. Temos de recuperar a institucionalidade! Agentes tem de ter voz, ou vamos virar Argentina”. Um outro palestrante clamou: “O modelo não é soviético, é democrático!” Há concessões que vencerão 2015/17 e seu futuro ainda não foi definido.
  • Planejamento no “Mundo Cor de Rosa” x “Mundo Verde e Amarelo”? Uma crítica recorrente que ouvi de vários participantes do ENASE sobre a posição do Governo foi que “pintaram um mundo cor de rosa”. “Falar o que eles falaram não precisa ter vindo. Podia mandar um vídeo”. O setor reclama do planejamento há anos. “Sempre erramos em custos e prazos de implementação”. Eu mesmo escrevi um post em outubro de 2010 (https://eduardoluzio.wordpress.com/2010/10/04/teremos-um-novo-apagao/), resumindo o ENASE daquele ano e apontando o risco de apagão já em 2013. Resultado: em 2013 ficamos em média sem luz 18 horas. Em 2001, ficamos 16 horas! (Dados da ANEEL citado por Carlos Faria (ANACE – Assoc. Nac. Consumidores de Energia).Um palestrante resumiu bem: “os problemas não são biodegradáveis. Temos que aprender com eles. Decisões foram postergadas e quando tomadas, tomadas de forma abrupta”.

E agora? Um palestrante do ENASE citou uma interessante pesquisa feita entre jovens da classe média: 64% estudaram mais do que seus pais e contribuem mais na renda da família. Perguntaram: “quem é responsável pela sua prosperidade?” Respostas: “meu próprio esforço” (46%), “Deus” (37%), “Família” (13%), “Governo” (2%), “Sorte” (1%).

Espero que estes jovens votem nestas eleições olhando para o futuro.

protestos-no-brasil-em-junho-de-2013-15

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

Uma resposta to “Quem é responsável pela sua prosperidade?”

  1. Parabéns, Eduardo, muito bem explicado. E apavorante também!

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