Brasil Pós-Eleição: é possível melhorar?

Hoje, na FEA-USP, tive a oportunidade de assistir a palestra do Prof. Albert Fishlow da Universidade de Columbia (EUA). Fishlow é um brasilianista há 50 anos que já fez várias contribuições à reflexão do desenvolvimento econômico no Brasil, a formação de economistas. Tal como Werner Baer, Fishlow é capaz de explicar nosso país melhor do que muitos economistas brasileiros. Acredito que esta capacidade está ligada ao fato de ser um estrangeiro olhando de fora para o Brasil e para o resto do mundo, além é claro, de sua capacidade intelectual.

Vou tentar resumir suas principais ideias que compartilho com você, em um texto rápido, estilo “notas de palestra”.

Fishlow começou sua palestra com a provação: “estou vendo o passado ou o futuro?”

Antes Plano Real, um motorista de taxi depositava o dinheiro 2x por dia. Sofrimento dos pobres era enorme.

Desde o Plano Real, houve mudanças fundamentais:

FHC: superávit primário, cambio flutuante e metas inflacionarias. Lei de responsabilidade fiscal (planejamento orçamentário de curto e longo prazo entre mandatos). Privatização. Expansão do comércio internacional (na década de 90, o Brasil exportava 5% do PIB). Final impopular de 2001/02 (inflação em alta, desvalorização cambial, recessão (apagão) e crise de 11 de setembro).

Lula: aceitação do modelo econômico de FHC (notadamente, Henrique Meirelles no BACEN) e programas sociais (bolsa família consome 0,5% do PIB, mas tem consequências positivas). Redução da pobreza e da taxa de desemprego (caiu de 12% para 4%), e nova classe C. Aumento dos preços internacionais dos commodities beneficiou a economia. Aumento das importações, especialmente manufaturas. Ganhos de produtividade agrícola. Esperança do pré-sal e o futuro do Brasil. EUA desenvolve novas tecnologias para o gás de xisto: importações em queda, com preços do petróleo em queda (de US$ 150 para US$ 90 / barril). PAC 1&2 que implicaria em crescimento do PIB de 5% a 6% ao ano. Lula termina seu 2o. mandato com grande popularidade.

Dilma 2011/12: diferença com Lula é do Estado intervencionista. Lula é um grande negociador que procurava soluções que agradassem a todos. Dilma queria reorganizar o Brasil com um grupo limitado de pessoas [um grupo de “iluminados”]. Politica industrial ativa: automóveis, importação de bens de capital da China em troca dos commodities brasileiros. Importância da atuação dos bancos públicos, especialmente o BNDES. Expansão dos programas sociais. Redução das taxas de juros e do déficit fiscal. Apesar da queda de juros, setor industrial não investiu. “Energização” da Petrobrás que assumiu parte significativa do investimento privado. A politica econômica não funcionou como esperado: PIB cresceu 2,7% em 2011 e 1,0% em 2012.

Dilma 2013/14: aumento da SELIC (de 7,5% para 11%) por causa da inflação resiliente entre 6% e 6,5%. Inflação alta no setor de serviços. Apesar dos preços administrados (energia, gasolina, transporte público e pedágios), inflação continua. Conta corrente se deteriora. Cambio se desvaloriza, mas se valoriza posteriormente. Protestos de junho. Politica externa problemática (ex. Venezuela e a refinaria em Pernambuco). Petrobrás com menos recursos. Escândalo de Passadena e o “pedágio político” de 3%. Cai interesse das multinacionais no pré-sal. PIB cresceu 2,5% em 2013 e 0,5% em 2014 (?). Média do crescimento do PIB na era Dilma pode ficar na média de 2% ao ano.

Eleições: 70% da população quer mudar. Insatisfação com SUS, violência e educação. Estiagem. Redução do rating (S&P e Moody’s). Derrota para Alemanha marca a Copa.

2015? Todos os candidatos prometem mudanças fundamentais. Insatisfação com crescimento econômico e do investimento (que hoje esta em 18% do PIB). Para crescer mais, o Brasil precisa investir de 23% a 24% do PIB. Crescer com menos inflação (4,5%)? Investir mais no SUS (de 5% do PIB para 10%)? Aumentar investimento em educação? Crescimento vai possibilitar a redução de impostos?

Choque de Realidade

Consumo privado, responsável pelo crescimento na primeira década do século, não conseguirá mais liderar a economia. Preços dos commodities em queda (ex. soja, petróleo). Poupança interna precisa aumentar (hoje esta em 15% do PIB, contra 40% na China, 33% na Índia, 29% na Coréia do Sul, 22% no México, 24% no Chile, 26% no Peru). O Brasil não conseguira atrair 9% do PIB em poupança externa para atingir meta de 24%. Talvez consiga 3%.

Temas importantes para o futuro do Brasil (ex. independência do BACEN) estão virando armas no debate eleitoral. 29 partidos, 39 ministérios: sistema politico não esta mais funcionando. Congresso se transformou uma associação de políticos incapaz de produzir leis apropriadas para o país.

O mundo já mudou. A produtividade no Brasil esta em queda.

Como reverter essa situação?

O Brasil precisa se integrar ao mundo. Mercosul não basta. A integração comercial precisa incluir os EUA e a Europa, para entrar na cadeia produtiva de maior valor agregado. O mundo esta se especializando e o Brasil não esta participando deste processo. Ao contrário, o Brasil esta “levantando muros” para o mercado internacional.

Brasil precisa internalizar o processo de inovação tecnológica. Enquanto no resto do mundo a inovação é liderada pelo setor privado, enquanto o Brasil investe 1% do PIB nas pesquisas nas universidades públicas. Há exemplos de sucesso: Embrapa, Embraer (o principal exportador e importador de produtos manufaturados, pois aposta na vantagem comparativa).

Foco na educação. Custo de um aluno de graduação em universidades públicas no Brasil é de US$ 10 mil, valor este que é 12x maior do que a educação primária e secundária no país! Mas, não é só quantidade, é qualidade. Provas internacionais (PISA) demonstram o atraso: em matemática o Brasil fica na 58o. posição, ciência 59o., leitura 55o. O líder mundial nestas 3 categorias é a China e este é o nosso concorrente!

Focar investimentos em eficiência nos setores com vantagens competitivas: agricultura, indústria, mineração, petróleo e serviços. Reduzir a dependência no setor automotivo como vetor de crescimento. Petrobrás não tem todas as tecnologias e precisa aumentar a cooperação internacional.

Estado efetivo, com investimentos mais eficientes, menos intervencionista. Exemplo: Alemanha e Escandinávia.

Não é um programa de um ano. O mundo não funciona assim. É um esforço contínuo que demanda a participação de todos! Há problemas sérios com a previdência social e o envelhecimento da população. Este deve ser o foco do longo prazo.

Voltamos a provocação inicial: “estou vendo o passado ou o futuro?”

Inflação, desequilíbrio fiscal, protecionismo e imediatismo no curto prazo são retornos ao passado! Nosso problema não é o cambio. O cambio é efeito, não é causa. Quanto tempo se leva para implementar investimentos? Não é do dia para noite. Não há fórmulas mágicas! É melhor crescer 3% ao ano consistentemente, aumentado gradualmente, do que 5% ao ano sem sustentabilidade!

Até pouco anos, 75% do crescimento mundial devia-se aos BRICs, hoje é 25%. Onde esta a tecnologia? Nas universidades ou nas empresas?

Precisamos de um planejamento estratégico de longo prazo. É preciso explicar a sociedade esse plano. O Brasil precisa entender a necessidade de poupar e não de gastar. Não há como crescer sem poupar! É preciso reduzir o déficit da previdência social (que hoje é de 2% a 3% do PIB), cuja tendência é piorar.

Reorganizar a política: o sistema politico precisa funcionar.

Educação de qualidade é feita pelo setor privado no Sudeste. E a educação pública no primário e secundário? Esse fator é crítico para reduzir as desigualdades sociais e regionais.

Ao contrário do senso comum no Brasil, Fishlow acredita que nosso problema não é a nossa alta carga tributária, mas a qualidade dos gastos públicos!

Chega de grandes ideias. Chega de PACs! Há bons exemplos de coisas que funcionam no Brasil e que precisam ser replicadas. Precisamos aproveitar o que esta dando certo no Brasil.

Viva Fishlow!

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

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