Mais uma Vítima do Lucro Líquido

Recentemente, estive com um empresário que me relatou uma triste história, que temo ser muito mais comum que um evento isolado.

Sócio não gestor de uma indústria de máquinas de décadas de existência, ele me relatou um quadro de terror. A empresa tem ótimos clientes, uma respeitável carteira de pedidos, mas não tem dinheiro para produzir e entregá-los. Endividada, a empresa já esta atrasando sua folha de pagamentos.

Como uma empresa chega a este ponto?

A crise de uma empresa nunca se deve a um só fator. São vários. E não acontecem do dia pra noite. É um processo de “fragilização” que se desenvolve por anos, mas que um evento externo (ou interno) circunstancial pode fazer “a casa cair”.

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1) Capital de Giro. No caso em questão, a empresa produzia suas máquinas por encomenda. Devido a alta customização da máquina, a produção poderia demorar 120 dias. Até alguns anos atras, a empresa conseguia negociar com seus clientes adiantamentos de forma que quando a máquina era finalmente entregue, o cliente já tinha pago 80% a 90% do seu valor. O capital de giro era positivo, pois o cliente financiava a empresa. Mas, a concorrência mudou. Os incentivos governamentais a produção de máquinas mudaram. E a empresa não conseguiu mais convencer seus clientes de adiantar o pagamento de seus pedidos. O capital de giro ficou negativo.

2) Lucro Líquido & Dividendos. Com uma estrutura societária fragmentada, onde somente uma parte dos sócios estava envolvido na gestão, nos anos de “vacas gordas” (leia-se, lucro líquido em alta), os sócios distribuíram dividendos, mesmo cientes das mudanças no capital de giro. Resultado: a empresa não constituiu as devidas reservas estratégicas de caixa para enfrentas as “vacas magras”. Não investiu em redução de custos. E, para piorar, para financiar o capital de giro, a empresa recorreu à empréstimos, com juros de 6% a 8% ao mês.

E agora, José?

Primeiro erro:  a empresa não se preparou para enfrentar as mudanças no mercado e sua principal conseqüência: capital de giro e redução de margens. Segundo: neste cenário adverso, usou o lucro para distribuir dividendos.

Hoje, a empresa precisa de “um pouco mais de dinheiro” para entregar seus pedidos e pagar sua dívida cara. Mas, quem quer emprestar dinheiro para uma empresa nesta situação? E se tiver alguém com esta disposição, quanto cobrará de juros?

Vender bens operacionais (ex. o terreno da fábrica)? Quem quer comprar um bem cuja venda pode ser questionada no caso da empresa pedir concordata (atualmente, recuperação judicial)?

Vender a empresa toda? Quem vai querer comprar uma empresa em crise? Ora, há muitos investidores que adoram este tipo de situação: comprar barato agora para vender caro depois. Na Argentina, estes investidores são chamados de “abutres”. Mas, para isso dar certo, os sócios precisam estar alinhados em relação ao valor de suas ações. E não basta estar alinhado, o valor tem de ser “sensato” para as condições da empresa.

Mais uma vitima do lucro líquido insustentável. Boa sorte.

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About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

Uma resposta to “Mais uma Vítima do Lucro Líquido”

  1. Posso dizer que “não raramente” converso com empresários que tem a visão de que o CAPITAL DE GIRO em sua essência, não faz parte do patrimônio da empresa tal como outras classes de ativos (o Fixo por exemplo). Em minha opinião, faz sim, pois no conjunto de fatores necessários para uma empresa produzir, via de regra, o capital de giro é tão necessário quanto o ativo fixo, a mão-de-obra, a matéria prima, etc.

    Isso é tão primordial e elementar que ao vender uma empresa por exemplo, o comprador irá deduzir no preço o capital de giro necessário para o bom funcionamento da instituição.

    Pode parecer que estou falando o óbvio, mas muitos empresários sofrem dessa miopia.

    Outro problema é o SÓCIO NÃO GESTOR, não tem nem do que reclamar.

    Abraços
    Antonio Luís Martins

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