A Miragem do Lucro

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Este não é um texto para falar mal do capitalismo! No penúltimo post, intitulado “Mais uma Vítima do Lucro Líquido“, relatei um caso de uma empresa que, dentre outros fatores, pagou muitos dividendos aos seus sócios nos anos de “vacas gordas” e não acumulou reservas de dinheiro para enfrentar os anos difíceis. É disso que quero aprofundar agora: a miragem do Lucro Líquido.

O conceito de lucro líquido (LL), no popular “lucro”, é um dos conceitos contábeis mais conhecidos. A fórmula pode ser simplificada como: receitas – custos & despesas – impostos – despesas com juros = lucro líquido. Para ilustrar:

LL

Não foi por acaso que colori o quadrado do lucro líquido de cinza! O problema é que uma empresa que é lucrativa, não necessariamente é saudável, tampouco sustentável. Pois, uma empresa que gera lucro líquido não quer dizer que há “dinheiro sobrando”, em particular para distribuir como dividendos (ou Juros sobre Capital Próprio – JSCP) para os sócios. Uma empresa pode dar lucro e não ter dinheiro! O pior é quando o empresário acha que por ter tido lucro, a empresa pode lhe pagar dividendos.

Muita coisa acontece do lucro líquido até o “dinheiro sobrando”. Há investimentos em capital de giro (vide o post dedicado a este explosivo tema), investimentos em infra-estrutura, máquinas, equipamentos e outros ativo fixos (também conhecidos em inglês como “capex” ou “capital expenditures“) e o pagamento de empréstimos (também conhecidos como “amortização do principal da dívida“). Quando deduzimos estas outras parcelas do lucro líquido chegamos ao conceito de fluxo livre de caixa (FLC), conhecido como “dinheiro sobrando”. Para ilustrar:

FLC

Três  características são muito importantes sobre o FLC:

(1) o FLC pode ser positivo (há dinheiro sobrando) ou negativo (há dinheiro faltando)! E quando o FLC é negativo, os sócios da empresa precisam estar preparados para abrir suas carteiras e “tampar o buraco”.

(2) Embora a base legal para uma empresa distribuir dividendos seja o lucro líquido, a base financeira é o FLC. Se você comparar as duas últimas figuras rapidamente deduzirá como o lucro líquido pode ser muito maior do que o FLC (e freqüentemente é).

(3) Em inglês, o O FLC se chama de “free cash flow”. Se o FLC for positivo, por exemplo R$ 100 mil, isso apenas quer dizer que sobrou R$ 100 mil após pagar todos os compromissos da empresa naquele determinado período. Isso não que dizer que o empresário e seus sócios possam pagar a si mesmos dividendos de R$ 100 mil, pois no período seguinte, esse dinheiro pode faltar para pagar os compromissos (dividas e investimentos) futuros da empresa!

Ou seja, a vida é difícil mesmo: se a empresa tem lucro líquido positivo, isso não quer dizer que a empresa possa pagar dividendos. Se a empresa tem FLC positivo, isso também não quer dizer que a empresa possa pagar dividendos. Dividendos só deveriam ser pagos após a empresa analisar o futuro próximo (no mínimo 3 anos) e projetar todos os componentes da última figura (receitas, custos & despesas, impostos, despesas com juros, investimentos em capital de juros e ativos fixos, amortização de dívidas). Só assim a empresa consegue ter uma estimativa mais clara de quanto pode distribuir de dividendos. Não fazer isso eqüivale a empurrar a “poeira para debaixo do tapete”. Só que um dia, a tem tanta poeira que o empresário tropeça e cai.

polvo

Coisas horríveis podem acontecer a uma empresa se ela distribui dividendos somente considerando seu lucro líquido. Ou pior ainda, quando a empresa tem LL>0 e FLC<0 e se endivida para pagar os dividendos. Se há uma coisa que pode comprometer muito a sustentabilidade de uma empresa é o tal do FLC negativo.

 

 

 

 

 

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

3 Respostas to “A Miragem do Lucro”

  1. Super me ajudou a compreender melhor o conceito!

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