Reger Brahms, aos 91 anos, sem partitura: para que se Aposentar?

“Para mim, a arte é um dialogo com o desconhecido.
Esse dialogo inclui todas as preocupações humanas –
como o sentido da vida e da morte, do amor e da crueldade,
sacrifício e redenção – na esperança de definir aquilo
que não podemos conhecer.”

Stanislaw Skrowaczewski

Ontem, tivemos o privilégio de assistir na Sala São Paulo, o maestro e compositor polonês, Stanislaw Skrowaczewski, de 91 anos, reger a Sinfonia no. 2 de Brahms (ré maior, Op. 73, 1877) por 40 minutos, sem partitura. Skrowaczewski foi aplaudido de pé e voltou ao palco três vezes para agradecer à orquestra e ao público. Poucas vezes vimos um artista ser tão entusiasticamente aplaudido na Sala São Paulo.

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Ontem, antes de reger a peça de Brahms, regeu também outras duas peças (Concerto no. 27 para piano de Mozart e a “Abertura Trágica” de Andrzej Panufnik (*)). No total, foram cerca de 2 horas de concerto sob o comando de um homem magro, curvado pelo tempo, mas com um vigor físico e intelectual impressionantes. E não foi só isso. Ontem foi o encerramento de uma série de ensaios e concertos que começaram na quinta feira (6/11).

Skrowaczewski começou a tocar piano com 4 anos de idade. Viveu a 2a. Guerra na Polônia, quando um ferimento na mão o impediu de continuar tocando. Parar? Não. Foi para a composição e regência. É assim que uma pessoa que ama o que faz, que é vocacionada, enfrenta os tombos da vida e que, sobretudo, ama a vida!

Assisti o espetáculo de ontem com emoção e com o desejo de poder chegar aos 90 anos com este vigor, este comprometimento com minha escolha profissional. Se aposentar? Para que quando se ama o que se faz?

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Por fim, vale notar que na platéia havia uma presença diferente dos outros sábados de concerto na Sala São Paulo: um grupo de jovens (13 a 15 anos?) de uma escola. Fiquei observando estes jovens. Alguns ficaram em silêncio concentrado durante o concerto. Outros, mais inqueitos, menos concentrados, provavelmente pensando na garota ao lado ou em provocar o amigo sentado na frente. Tudo certo, faz parte da juventude.

Fiquei pensando quantos jovens ali se deram conta do que é reger uma orquestra aos 91 anos. Do quanto é importante encontrar nossa vocação, seguí-la com coragem e comprometimento até a nossa vitalidade permitir. Eu e minha esposa ficamos torcendo para que algum dos professores que acompanhavam o grupo pudesse dizer a eles o significado daquela tarde.

Para que se aposentar?

(*) Nota: “Abertura Trágica foi composta em Varsóvia, em 1941, sob a influência do medo e do horror da vida diária e de minha sensação agoniada de que coisas piores ainda estavam por vir. O destino seria mesmo trágico, com a destruição do Gueto pelos nazistas, em 1943, e, no ano seguinte, com o chamado Levante de Varsóvia, quando o Exército Russo passivamente aguardou às portas enquanto os alemães arrasavam a cidade quase inteira, matando 250 mil poloneses, incluindo mulheres e crianças”. Mais detalhes clique neste link.

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

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