A Saga de Empreender e o Venture Capital no Brasil

Empreendedores são agentes fundamentais no desenvolvimento de uma economia, de sua produtividade, capacidade de inovar, gerar renda e empregos. Dentre os principais desafios de empreender está a captação de recursos financeiros. Há duas possibilidades: empréstimos (dinheiro dos bancos) e capital de risco (dinheiro dos sócios). Para uma empresa nova, sem histórico, ativos e patrimônio (“startup“) é praticamente impossível conseguir empréstimos bancários. Resta o capital de risco. Muitas vezes, o empreendedor investe boa parte de seu próprio dinheiro na nova empresa, mas isso pode ser insuficiente. É preciso então encontrar outros investidores.

No primeiro estágio de desenvolvimento de uma empresa, esses investidores externos são conhecidos como “anjos” que aportam o “capital semente“. Em um segundo estágio, ainda com a empresa sem histórico, mas com grande potencial, o capital pode vir dos Fundos de Venture Capital (VCs). Os VCs buscam empreendedores com boas idéias capazes de construir empresas com alto potencial de crescimento, e por que não, com potencial de revolucionar uma tecnologia, um hábito de consumo. Há inclusive grandes empresas, em setores com inovações tecnológicas intensas (fast tech), que possuem VCs (chamados de corporate ventures) para desenvolver novas tecnologias e produtos dentro de suas cadeias de valor (ex. Embraer, TOTVS), até como uma forma de dinamizar e baratear seus investimentos em P&D (open innovation).

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Em um terceiro estágio, quando a empresa já ultrapassou seu ponto de equilíbrio (ou seja, já é lucrativa (EBITDA> 0), o capital de risco podem vir de Fundos de Private Equity (FPEs). A meta destes três tipos de investidores é ganhar dinheiro com a venda de suas ações para o próximo investidor (ex. o VC vender suas ações para um FPE) até chegar a fase do desinvestimento, quando ocorre a venda das ações da empresa na Bolsa (IPO – Abertura Inicial de Capital) ou a um investidor estratégico (via Fusões & Aquisições).

Ciclo Capital VC

No Brasil, os FPEs, VCs e capital semente já acumulam R$ 100 bilhões de investimentos. Neste post, vamos focar nos VCs, dada sua importância estratégica para viabilizar empresas sem balanço, sem informações, que não tem condições de pleitear empréstimos bancários.

No Brasil, até o Plano Real, os VCs privados (ex. Brasilpar) e públicos (ex. BNDESPar e FINEP) já existiam, mas com transações relativamente pequenas. A concorrência com o overnight era imbatível e a inflação distorcia qualquer tentativa de estimativa de retorno nestes investimentos. Com a estabilização da inflação, as privatizações (1995/00), a bolha da internet (1999/00) o ambiente de negócios começaram a melhorar. Em 2005/2007, houve vários IPOs na BOVESPA, inclusive com empresas que tivera aportes de FPEs: agora havia histórias de sucesso de desinvestimentos.

Nos EUA, as empresas apoiadas pelos VCs geraram 11% dos empregos do setor privado e 21% do PIB. No Brasil, o capital ainda esta muito centrado nos FPEs. Segundo a ABVCAP, somente 8% dos recursos levantados por fundos de investimento até 1S14 esta alocado à VC. Por que?

Hoje, no Insper, tive a oportunidade de participar do “1o. Congresso Nacional de Venture Capital”, de onde vem boa parte das estatísticas usadas neste post. Neste Congresso, os principais desafios dos VCs no Brasil foram discutidos:

1) Valuation. Como avaliar uma empresa que não tem história? Muitas delas inclusive são tão inovadoras que não existe nenhuma outra empresa similar que possa servir como parâmetro de comparação.

2) Investimentos Alternativos sem Risco. Como convencer os investidores à alocar seu capital em um investimento de risco quando os títulos do governo federal pagam altas taxas de juros?

3) Contingências. Se a empresa não evolui e fecha, os VCs podem ser responsabilizados por processos trabalhistas. Ou seja, além de perder o capital investido, esses VCs podem perder ainda mais dinheiro. A perda não tem limite.

4) Legislação. A regulamentação específica para VCs e FPEs precisa evoluir. Por ex., o tributo sobre ganho de capital no Brasil é o mesmo para investidores de curto e longo prazo. Outro ex.: questões com o CADE. A Intel Capital, por ex., tem de passar por todo processo do CADE para investir R$ 2 a 3 milhões em uma startup. Não faz sentido!

5) Pesquisa. Falta de articulação com as Universidades. Nos EUA (ex., Vale do Silício), em Israel, essa articulação é intensa, mas no Brasil ainda há questões entre universidades públicas e sua cooperação com empresas privadas.

Destes 5 desafios, apenas o (1) é comum à outros países. Os outros quatro são peculiares ao Brasil.

Resultado? A Profa. do Insper, Andrea Minardi, fez uma pesquisa com 172 fundos e analisou 556 transações representando US$ 22,1 B em investimentos (2% deste volume investido refere-se a VCs e 96% a FPEs) entre 1982/2014. Destes 556 investimentos, 244 já foram liquidados. O ticket médio dos VCs (US$ 2,6 M por empresa) é muito menor do que FPEs (US$ 60 M). Mas, o retorno no investimento (TIR) ponderada por tamanho da transação foi muito maior para os FPEs (19%) do que o VC (12%) no período de 1982/2013.

Ou seja, o histórico do retorno de VCs no Brasil é ruim, pois o VC corre mais risco do que o FPE e seu retorno tem sido historicamente menores! Que saga! Mas, a saga do VC só é comparável à do próprio empreendedor no Brasil, cujos desafios são ainda maiores.

 

 

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

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