Risco de Implementação, Financiamento à Infraestrutura e outros Pesadelos Brasileiros

“Um quadro vale mais do que mil palavras”, diz o ditado popular. Semana passada, na apresentação de uma das maiores empresas de classificação de risco do mundo, a Standard & Poors (“S&P”), discutiu-se o financiamento à  no Brasil. São portos, estradas, aeroportos, geração, transmissão e distribuição de energia, água e esgoto, etc..

Para viabilizar estes investimentos, o Governo tem tentado construir alternativas ao BNDES, cuja capacidade de financiamento esta se esgotando (ou já esta esgotada).

E por que financiar a infraestrutura é tão importante? Não se trata apenas de ter ou não a infraestrutura, mas também de seus efeitos. O multiplicador do PIB para o investimento em infraestrutura é 2,5x. Ou seja, se investirmos 1% do PIB em infraestrutura, o PIB em si poderá aumentar crescer 2,5%. Isso sem se falar no bem estar dos usuários destas infraestruturas. 

Em 2010, antes de deixar o Governo, Lula criou as bases para as chamadas Debêntures Incentivadas para Infraestrutura. Desde então, somente R$ 11 bilhões foram emitidos, o que é muito pouco frente às necessidade de financiamento. Só para se ter uma idéia de grandeza, desde 2008, o BNDES teve aportes de R$ 440 bilhões do Tesouro Nacional.

Muitos destas debêntures tinham garantias dos acionistas (sponsors) e/ou financiavam expansões de empresas já existentes (os chamados, brownfields, como por exemplo a duplicação de uma estrada). Poucas (ou nenhuma) debêntures financiavam projetos inteiramente novos (chamados de greenfields).

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Para piorar a perspectiva desta fonte alternativa de financiamento, poucos investidores estrangeiros quiserem comprar estes títulos. Por que? A maioria destas debêntures não tinham grau de investimento (ou seja, risco de qualidade), especialmente no tocante ao risco de implementação dos projetos. Os estrangeiros não conseguem dimensionar o risco de construção (atrasos nas obras, não performance de fornecedores,…), de obtenção das licenças apropriadas (em particular as licenças ambientais), etc. Em particular, a Operação Lava a Jato, trouxe a tona o risco de não performance de fornecedores (ex. construtoras, empresas de engenharia e fornecedores de equipamentos, os discos EPCistas).

Desde o ano passado, a S&P vem modificando sua metodologia de classificação de risco para aprimorar a análise do risco de implementação do projeto. Essas alterações acarretaram em um aumento significativo em rebaixamentos das notas de risco (leia-se, os projetos ficaram ainda mais arriscados):

Ratings S&P

Enquanto tudo isso acontece (ou não acontece), o patrimônio dos fundos de pensão é de R$ 2,5 trilhões, mas só 4% é aplicado em crédito privado, o resto em títulos do Gov. e bancos. 

Nossos desafios são tão grandes quanto o tamanho do nosso país!

Um abraço,

Eduardo Luzio

 

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

Uma resposta to “Risco de Implementação, Financiamento à Infraestrutura e outros Pesadelos Brasileiros”

  1. Luis Ângelo Leal Pouchain Responder 29 de Agosto de 2015 às 12:18 PM

    Eduardo, estou encontrando dificuldades para dar continuidade ao nossa conversa sobre o mestrado. Aparecem dezenas de links. Agora achei você aqui. Meu comentário sobre a sua informação, é que, embora eu seja extremamente crítico a este sistema de produção. Como é possível em um mundo tão complexo, cada um fazendo o que é melhor para si, resultar em benefícios para todos. Me parece mais com uma panela de pressão onde todas as moléculas se chocam gerando apenas um tremendo potencial de explosão. Porém, em mundo complexo, e um país complexo, me dói concordar com Roberto Campos; “o Brasil precisa de um choque de capitalismo” Infelizmente o Brasil é um país “retardado” retardado na independência, na libertação dos escravos, na república, no capitalismo, e no até no socialismo. (foi o Delfim que disse na década de 70 que nós éramos mais socialistas que a URSS, tudo aqui era estatal?) Enfim, não somos eficientes como um país capitalista, nem como um país de economia planificada. Somos o pior dos dois mundos. Isto é para mim nada mais do que uma questão de educação, e de oportunistas de demais. Os capazes se não tiverem um bom q.i. (quem indicou) não encontram a oportunidade nenhuma se não se enquadrarem. Para se enquadrar não precisa de talento.
    Um abraço
    Luis Ângelo

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