O fim de um monopólio pode enriquecer (ainda mais) seus acionistas?

A pergunta é inusitada. A resposta mais ainda. É o que ensina a história da Standard Oil, provavelmente o maior monopólio da história dos EUA.

Em 1865, J.D. Rockefeller constituiu a Standard Oil, incialmente focada no refino e na comercialização do petróleo. Naquela época, o maior uso do petróleo era para produzir querosene, que por sua vez era usada para iluminação noturna.

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Rockefeller construiu seu império a partir de uma estratégia baseada em aquisições (para “ordenar o mercado”), integração vertical (para aumentar a rentabilidade e o poder de mercado) e forte acumulação de caixa. O caixa acumulado “não só isolava a empresa dos violentos altos e baixos do mercado que empurravam os competidores contra a parede, mas também permitia aproveitar as oportunidades das recessões.” (pág. 22)

Mas, além de acumular caixa e buscar a integração vertical, Rockefeller tinha outro tripé em sua estratégia competitiva: não competir. Comprar concorrentes voluntariamente ou involuntariamente e “administrar” a concorrência. “Cooperação e combinação eram necessárias para minimizar os riscos no mundo incerto do capitalismo.” (pág. 22)

Rockefeller usou suas economias de escala para negociar fretes ferroviários abaixo daqueles pagos por seus competidores. Mas, a Standard não parou nos descontos. Exigiu “drawbacks” das empresas ferroviárias: para cada $ 1 de frete pago por um competidor para enviar seu óleo para NY, a ferrovia pagava a Standard $ 0,25! Ou seja, os competidores da Satndard, sem saberem, estavam subsidiando-a!

Rockefeller queria dominar toda a indústria: cortava preços em um mercado específico forçando seus competidores ao prejuízo e comprando-os em seguida através de empresas disfarçadas. Resultado? Entre 1879 / 85: a Standard controlava 90% da capacidade de refino dos EUA. Controlava também 80% do transporte e pipelines da Pensilvânia, então a maior zona produtora de petróleo dos EUA (e uma das maiores do mundo).

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O mais incrível era que J.D. Rockefeller e seus diretores não viam mal algum em sua agressiva estratégia de “administrar a concorrência”. Acreditavam que estavam fazendo uma enorme contribuição a industrialização dos EUA.

Em 1906, finalmente, em uma corte federal, o presidente Theodore Roosevelt processou a Standard por conspiração contra o comércio, acusando Rockefeller e seus diretores como “os maiores criminosos do país”. (pg. 92)

Em 1911, a Suprema Corte Americana decidiu pela dissolução da Standard Oil Trust. Em 6 meses, a empresa deveria se fragmentada em empresas menores que deveriam competir entre si. Era uma tarefa entanto. A escala da Empresa era enorme. Na época, a Standard controlava 3/4 do refino de óleo nos EUA.

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A Standard foi dividida em várias empresas que, mais tarde, geraram outras grandes empresas como a Exxon, Mobil, Chevron, Amoco, Conoco, ARCO, etc. E o que aconteceu com Rockefeller? Ele nunca vendeu suas ações. Recebeu, pro-rata, ações das novas empresas oriundas da quebra do monopólio. Um ano após a dissolução da Standard, o preço das ações das empresas que acompanham dobraram na bolsa de valores. Rockefeller morreu com uma fortuna avaliada hoje em US$ 9 bilhões.

E como pode a quebra de um monopólio enriquecer ainda mais seus acionistas? Este é uma das lições mais valiosas do caso Standard e acho que muito atuais.

No enorme conglomerado que a Standard se tornou, as grandes decisões (ex. investimentos acima de US$ 5 mil?!) era todas centralizadas no escritório de Nova Iorque. Com a quebra do monopólio, as empresas ganharam autonomia para tomar suas próprias decisões. Uma delas por exemplo, gerou “uma das invenções mais importantes do século XX”: o processo de craqueamento térmico do petróleo (pág. 95). Através deste processo era possível extrair até 45% de gasolina de um galão de petróleo, quando antes se extraia de 15% a 18%. O processo foi inventado por um técnico da Standard, mas recusado pelo escritório de Nova Iorque. Com a cisão da empresa, a Amoco investiu no processo e revolucionou a indústria do petróleo!

Já pensou o que a dissolução da Petrobrás em empresas maiores, focadas na concorrência,poderia trazer aos seus acionistas?

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Fonte: YERGIN, D. The Prize: the epic quest for oil, money & power, Free Press, NY, NY, 2009.

 

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

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