Legados de um Professor e um Brasileiro Extraordinário: Werner Baer

Ontem, tive a honra de participar de um evento em homenagem ao brasilianista Werner Baer, na FGV-SP. Quando o prof. Paulo Tenani me convidou não me dei conta do que estava por vir. Ao preparar minha apresentação, Werner, mesmo já morto, me proporcionou valiosas lições de vida.

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Desde minha tese de PhD na Universidade de Illinois, meu tema de pesquisa tem sido sobre a dinâmica de geração de valor de empresas. Mas, quanto vale uma pessoa? Quanto vale uma pessoa como Werner Baer e seu legado? É possível mensurar?

Lembrei de uma frase de Einstein: “nem tudo que mensuramos importa, nem tudo que importa podemos mensurar.”

Ao tentar avaliar o legado de Werner, ele me deu mais duas lições:

O que faz alguém ser um brasileiro extraordinário?

O que faz alguém ser um professor extraordinário?

Um brasileiro extraordinário…

Werner nasceu na Alemanha e viveu nos EUA, mas foi um brasileiro extraordinário. Ele buscou não apenas entender nosso país, mas também como podemos torná-lo melhor. Até 2014, havia escrito cerca de 165 artigos, livros e/ou capítulos de livros, boa parte sobre o Brasil, mas também sobre outros países sul americanos.

Fez sua parte em mudar o Brasil: investiu em formação e educação. Como disse o prof. Carlos de Moura Castro, Werner foi um empreendedor acadêmico (“institution builder” – participou da formação de vários centros de pós graduação em economia no Brasil).  Era um grande “networker“, promovendo encontros entre várias pessoas ao redor do mundo. O prof. Flavio Versiani relatou que, em 1970, havia 5 centros de pós graduação no Brasil com 10 doutores. Em 1979, eram 12 centros com 130 doutores. Boa parte deles com o apoio de Werner.

Quantos economistas o Werner ajudou a formar? Fiz esta pergunta a alguns colegas e ninguém soube dizer… Brasileiros? Latino americanos? Portugueses? Americanos? Em 2009, o prof. Carlos Azzoni estimou que cerca de 20% de todos os PhDs (em economia) brasileiros tinham recebido apoio do Werner. O prof. Joaquim Guilhoto estima em 540 brasileiros formados no exterior (Universidades de Illinois, Vanderbilt, Yale,…).

Werner contribuiu para desenvolver capital humano não só para academia, mas para o mercado financeiro e não-financeiro.

Além de todos estes feitos, Rodrigo Schneider sintetizou muito bem esta dimensão do Werner: “era mais Brasileiro do que eu, porque sua nacionalidade não lhe foi imposta, mas sim escolhida”.

Werner Baer - economics professor

Werner Baer – economics professor

Um professor extraordinário…

O que torna um professor excepcional? Não é apenas sua obra, mas sua capacidade de transmissão.

Fui ao Google e descobri depoimentos interessantes de alunos de graduação e pós graduação.

Em um site americano que dá opinões dos alunos sobre professores e seus cursos (ECON 103 e 420) (https://www.koofers.com/university-of-illinois-urbana-champaign-uiuc/instructors/baer-124923/) há relatos interessantes: 

  • “Best man I have ever met as an econ professor!! Must take this class!!” (deu 5 estrelas para o Werner)
  • “kind of boring” (deu 3 estrelas?!)
  • “don’t learn anything” (deu 5 estrelas?!)
  • “most boring person ever”
  • “cute man”
  • “easy exam”

SER PROFESSOR TAMBÉM É ISSO: SER GENEROSO COM A IMATURIDADE E/OU INGENUIDADE DOS JÓVENS ALUNOS.

Na página de Werner no Facebook, selecionei alguns depoimentos preciosos (tradução minha):

Pedro Elosegui: “Co-autor com entusiasmo de um interessante trabalho sobre Argentina, onde nos demos conta dos desafios de transformar una sociedade de conflitos em uma sociedade de consensos, tarefa pendente Werner… sempre algo para fazer, agradeço por seu exemplo”.

Sérgio Britos: “…Não só Brasil e Colombia estavam entre suas preferencia, mas também Paraguai para o qual dedico vários papers, conferencias e visitas durante mais de 4 décadas”.

George Sadwosky: “Werner foi meu instrutor de Economia 1 em Harvard em 1956. Ele instalou em mim a fascinação pela economia, tanto que continuei até o Ph.D”.

Kerlyng Cecchini: “…Somos todos gratos aos horizontes por ele abertos”.

Paulo Henrique Vaz: “…É assim que vou sentir sua falta: uma alma jovem, composta por uma mistura de sofisticação e humildade, de quem poderia trocar sutilmente a conversa de música clássica, ou literatura russa para música caipira brasileira, séries de TV ou suas piadas ingênuas que o faziam rir como uma criança…

Um amigo que eu encontrava na academia de ginastica usando, com orgulho, a camisa da seleção brasileira, declarando seu amor pelo Brasil…

De certa maneira é confortante saber que ele passou seus últimos momentos no hospital discutindo questões sobre o Brasil com seus corteses alunos”.

Pedro Frizo: “O que é um libertador? Antes de conhecer o Prof. Werner Baer, vinha à minha mente imagens de líderes políticos, de indivíduos com discursos brilhantes, capazes de arrastar massas a praças públicas.

No entanto, logo após conhece-lo, percebi que o verdadeiro professor é, acima de tudo, o verdadeiro libertador. É aquele que, pacientemente, realiza um trabalho de formiguinha todos os dias, que liberta o aprendiz das estruturas mentais que tem, que o incentiva a fazer novas construções, a pensar a vida de maneira completamente nova, a agir neste mundo de maneira distinta…

Eu ainda morava em Palma quando recebi o convite do Prof. Werner para terminar o meu TCC sob sua co-orientação na Universidade de Illinois. Achei fabuloso esse convite vindo de uma pessoa com a qual jamais havia tido nenhum tipo de contato pessoal. Senti, naquele momento, que ele acreditava em mim, em minhas ideias e em minhas aspirações. E é somente isso que precisamos: de alguém que acredite em nós.

Em nosso último encontro… lhe disse que me focaria na sociologia econômica e ele, apesar de discordar desta vertente, fez o que melhor faz o verdadeiro mestre: me incentivou; me empurrou adiante”.

Fernanda Pittella: “É impressionante ler todos estes relatos de como Werner tocou a vida de todos estes alunos e professores. Que vocês mantenham essa centelha viva dentro de vocês e sejam capazes de retribuir de muitas maneiras o que ele fez por vocês”.

Para concluir, Werner me fez lembrar de uma passagem importante na minha vida. Era 2009, meu pai padecia de um câncer terminal. Após um dia difícil no hospital, ele pegou na minha mão e disse: “filho, estou morrendo”. Perguntei a ele se ele estava com medo. “Não”, respondeu sereno. Então eu lhe disse que em qualquer coisa que eu fizesse, haveria um pouco dele em mim.

Werner não era meu pai, mas ele me transmitiu valores. Sua integridade, generosidade e ética são inspirações importantes.

No sábado de manhã, meu filho de menos de 2 anos, acordou e chegou silencioso na sala onde eu estava a escrever este testemunho. Pensei: “espero poder ter a inspiração e o tempo para tentar passar para ele os valores que aprendi com Werner”.

Muito obrigado, Werner.

FOTOS WERNER BAER

(FGV 2011. Em ordem da esquerda para direita, Paulo Tenani, Rodrigo Azevedo, Werner Baer, Renato Luz, Sérgio Garón, Agostinho e eu.)

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

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