Sobre professores e alunos: possíveis (re)encontros

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Estou tendo a sorte de ser professor na escola onde fiz minha graduação. O prazer de ser colega de meus professores. Trabalhar, participar de seminários e refletir sobre questões práticas e teóricas com eles. Ir almoçar, tomar café e falar sobre futebol, política, Lava Jato, filhos, etc.  Encontros, reencontros que produzem uma satisfação impar.

Em contraste, na sala de aula, por vezes me deparo com alunos sonolentos e desatentos, porém atentos ao Facebook ou ao jogo de futebol que assistem na internet. E isso é um fenômeno que presencio em escolas públicas e particulares, ou seja, não pode ser explicado pelo valor da mensalidade.

Dá vontade de gritar: “vocês não percebem o valor deste momento? O valor do que está sendo ensinado? Que poderemos vir a trabalhar juntos no futuro e transformar essa relação aluno-professor em colegas, coautores? Que há poucas certezas na vida, mas uma delas é a previsão do tempo: ele esta passando! Portanto, que tal aproveitarmos ao máximo esses momentos juntos e aprender algo?

Não! Não grito, pois talvez fosse pouco eficaz. Talvez, não?! Fico no mínimo intrigado. Como conquistar a atenção, o comprometimento, o compromisso destes alunos?

Dar uma boa aula é obrigação do professor. Ensinar algo útil, relevante também. Essa combinação, aula boa e útil é difícil, dá muito trabalho. Outro dia, após almoçar com meu querido colega, Marcos Nakaguma, concluímos que montar uma aula leva tempo, mas um dia é possível concluirmos que o “curso esta pronto”. Mas, se nos questionarmos que se estamos ensinando da melhor maneira, ou seja, se a aula além de boa e útil é também eficaz, aí, o esforço é contínuo. Sempre há o que melhorar.

Nos corredores da faculdade, vez ou outra encontro ex-alunos que me dizem: “consegui um estágio por causa de suas aulas.” Algumas vezes, esses depoimentos vêm por email. Fico muito satisfeito e ganho força para continuar a investir nas aulas. Outro dia, recebi um ex-aluno da USP que me deu uma lição valiosa. O aluno queria que lhe orientasse no TCC e confessou: “na época que fui seu aluno, não tive a maturidade de perceber o valor do que você ensinava. Foi ao trabalhar em um banco que percebi”. Perguntei “por que você não faz o curso de novo?” Ele riu: “Ah, professor não dá. Tenho créditos a cumprir.” Ok, não dá para fazer o curso novamente, mas há a vontade de retomar o objeto de estudo em um TCC.

Ou seja, acho que ensinar e aprender exigem boas doses de humildade.

Ensinar requer humildade do professor. Reconhecer que é necessário “laçar” seus alunos, e que para isso não há respostas fáceis. Uma aula bem preparada é necessária, mas não suficiente. É preciso mostrar ao aluno que a utilidade da aula vai além do crédito, da nota, da presença. O professor deve lembrar do valor deste encontro, cujas implicações podem evoluir ao longo do tempo, podendo até gerar trabalhos conjuntos no futuro. O professor também tem de se lembrar que um aluno desatento pode estar simplesmente tendo um dia difícil, e que não tem condições de se concentrar. Nestes momentos, o professor deve administrar seu narcisismo e focar nos outros alunos.

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Aprender requer humildade do aluno. Reconhecer que estar numa sala de aula é um privilégio para poucos. Não só por uma questão financeira, mas pelo tempo que tem para aprender, pois este tempo se tornará cada vez mais escasso. Reconhecer sua pouca experiência profissional e apostar que o professor possa ter algo de útil para lhe transmitir. O aluno também deve lembrar do valor deste encontro, cujas implicações podem evoluir ao longo do tempo, podendo até gerar trabalhos conjuntos no futuro.

Feito este “desabafo” penso nos colegas professores do ensino fundamental e médio. Se é difícil para um professor universitário “laçar” seus alunos, em um momento que estes alunos escolhem a profissão que desejam (pelo menos, preliminarmente), quiçá nos momentos anteriores a esta escolha, onde os professores têm de envolver os alunos no ensino de matérias de base? Como conquistar um aluno que gosta de humanas a gostar de matemática? Ou vice-versa?

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

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