Jogos Vorazes: Desabafos de um Sapo Cozido

Quem não gosta de política esta condenado a viver sob as leis de quem gosta.

Meu blog não trata de temas políticos, mas hoje, foi inevitável.

Acabo de ler o livro do jornalista Vladmir Netto sobre a Lava Jato (Lava Jato, Ed. Sextante). Trata-se de um relato detalhado, responsável, bem escrito. Mas, foi um livro difícil de ler. Angustiante. Desesperador. Dá vontade de gritar! O que estão fazendo com nosso país? Não há limites para as nossas “elites” e seus jogos vorazes?

Vamos à alguns fatos e deduções lógicas, ou especulações, como você quiser e puder entender.

Primeiro, quem são estas “elites”? Vou chama-los de “hienas”. No reino animal, as hienas possuem uma das mordidas mais poderosas. São caçadores eficientes, mas preferem comer a carniça caçada por outros animais. Na África, onde habitam, os nativos acreditam que as hienas são encarnações de maus espíritos. No Brasil, chamo de hienas os corruptos e corruptores que se articulam para usurpar milhares de trabalhadores e aposentados brasileiros, a quem eu vou chamar, me desculpem o termo pouco simpático, de “sapos cozidos”.

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O termo “sapos cozidos” vem de um experimento feito em uma universidade com um sapo em um aquário com um termostato. Gradualmente, os cientistas aumentavam a temperatura da água. O sapo se incomodava, mas se adaptava. Se alienava. Até morrer cozido vivo. Assim acontece com população brasileira de TODAS AS CLASSES SOCIAIS, que não tem acesso a um transporte público decente, à hospitais e escolas e segurança, apesar de trabalhar CINCO MESES POR ANO SÓ PARA PAGAR IMPOSTOS. Diante deste quadro, os brasileiros se adaptam, se alienam, fazem o que podem para sobreviver. Outras se embebedam, se drogam, mergulham no futebol ou na religião. Para que? Para suportar, para esquecer. Esquecer a miséria de suas vidas e a falta de esperança. Cozinham vivas. É muito trágico.

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Hienas não comem sapos. Na verdade, nem gostam deles, mas precisam de seus votos e, principalmente, de seu dinheiro.

A usurpação das hienas se dá em várias formas, desde roubo, até a concessão de benefícios tributários e concorrenciais, financiamentos com juros subsidiados, benesses que geram lucros extraordinários à certos empresários-hienas. As hienas não são apenas políticos e empresários inescrupulosos, mas também funcionários “públicos” dos três poderes que na verdade atuam como funcionários privados. Não tem o mínimo pudor em gastar o dinheiro suado do povo em Paris, Mônaco, nas lojas mais caras do mundo. Certos empresários-hienas então tem um apetite infinito: não apenas querem ganhar com o superfaturamento de obras, produtos e serviços, mas também os oferecem com baixa qualidade!

Segundo, não vivemos numa democracia, vivemos em um regime totalitário. O totalitarismo das hienas.  Na teoria da democracia, a lei é igual para todos, mas no Brasil há 36 mil pessoas com foro privilegiado. Ou como alguém disse: “foro despudorado”, “foro descarado”. Muitas destas pessoas, além de diferentes perante a lei, possuem aposentadorias especiais, precoces, além de vários outros privilégios as custas da sapaíada. Democracia não é ter 38 partidos. Democracia não é ser obrigado a votar. Como um direito pode ser obrigatório? Boa parte de nossos políticos não nos representam. Representam uma “elite” de hienas que devoram o fruto do trabalho alheio de quem paga impostos, trabalha para sobreviver e acredita na meritocracia. Ou seja, todos nós que pagamos impostos, mas não temos saúde, educação, segurança e representação.

Terceiro, felizmente entre os sapos cozidos, há os inquietos. Brasileiros comuns fartos da panela quente. Sociólogos, cientistas políticos, economistas, empresários, professores, jornalistas, sacerdotes, trabalhadores, aposentados, juristas e tantos outros que resolvem protestar, denunciar as hienas. A Força Tarefa da Lava Jato tem investigado, acusado, julgado e prendido algumas hienas. Até agora, foram 118 condenações.

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Com todo o imenso respeito que eu tenho pelos policiais, delegados, promotores e juízes envolvidos nesta inédita operação, ao ler o livro do Vladmir, fico com a angustiante impressão que eles só estão conseguindo evidências sobre a ponta do iceberg. No livro, fala-se em comissões de 1%, 3% e chegando a 6%. Seis por cento é o maior número que li no livro. Não acredito.

A refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco, em 2005, foi orçada em US$ 2,4 bilhões. Em 2016, já consumiu US$ 17,8 bilhões e ainda não foi concluída. Ou seja, só esta obra já custou 8x mais do que o orçado e a comissão das hienas foi de apenas 1%? 6%? Não acredito. É muito mais, mas a Força Tarefa, aparentemente, não consegue decifrar onde o grosso da propina foi parar.

Há um aspeto da corrupção na Petrobrás que ainda não foi desvendado / divulgado: o seu braço financeiro. Que bancos públicos e privados estão envolvidos? Como conseguiram camuflar estes fluxos de pagamentos / transferências? Suspeito de operações com derivativos, pois eles são complexos o suficiente para camuflar essa dinheirama que sangrou do Brasil para os inúmeros trusts das nossas hienas.

Outro aspecto que também não foi desvendado / divulgado: a participação ativa de membros das supremas cortes no sistema.

A Lava Jato esta desvendando o grande sistema de corrupção na Petrobrás. Mas e o sistema de corrupção na Eletrobrás? Banco do Brasil? Caixa Econômica, BNDES? Telebrás? Fundos de pensão? Ministério da Saúde? Ministério da Educação? Etc.

Ainda há outro vespeiro: qual a relação das hienas políticas com o trafico de drogas? Com o PCC? Jogos de azar? Por sinal, a comissão especial do Senado acaba de aprovar a legalização dos cassinos… que oportuno para as hienas!

Acho que quando a Força Tarefa expor estes vespeiros, a verdadeira dimensão dos jogos vorazes, temo que ela termine tragicamente. As hienas simplesmente não vão permitir tanta exposição.

Quarto: o impeachment foi um golpe? NÃO! Isso é uma discussão juvenil, maniqueísta, uma cortina de fumaça promovida para legitimar um certo grupo de hienas que perderam o apoio de outras hienas.

Houve vários golpes que ainda não acabaram. Os piores golpes já aconteceram e não foram na politica, foram na economia. Em setembro de 2015, o Brasil perdeu o grau de investimento. Esse conceito (grau de investimento), que pode ser enigmático e distante para os desinteressados em economia, é um golpe mortal contra a sua, a nossa, capacidade de ter empregos e renda. Não é à toa que, até maio deste ano, temos 30,4% da população ativa desempregada e subempregada. Ou seja, para cada 10 brasileiros que podem trabalhar, três não conseguem emprego  ou arrumam “bicos”.

Mais recentemente, nossos supostos representantes no Congresso e Senado pretendem aprovar leis que protegem as hienas dos inquietos da Lava Jato e das 10 medidas contra corrupção. Todos estes golpes, jurídicos e econômicos, são contra as esperanças dos brasileiros de viver em uma democracia representativa, uma economia com possibilidades de prosperar, uma sociedade com o mínimo de justiça, um país que nos dê orgulho de criar nossos filhos e netos.

O golpe derradeiro esta quase completo. Terminará com o fim precoce da Lava Jato, com a estagflação (inflação alta + recessão econômica) e o empobrecimento geral da população.

Quinto. Uma coisa é certa: se quisermos mudar o Brasil minimamente, teremos muito trabalho. Precisaremos nos engajar, impor limites à estas hienas vorazes, abandonar nosso cinismo, malevolência e protestar mais, votar melhor.

Devemos parar de brigar entre nós, pois nossas diferenças partidárias são apenas ilusões criadas pela ficção de democracia que as hienas querem nos convencer que é real. Será que esta crise econômica sem precedentes históricos, o aedes egypt, microcefalia, cortes nas aposentadorias serão as forças trágicas que nos farão sair do conforto do cinismo da visão simplória do país e encarar a complexidade dos jogos vorazes em que vivemos?

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Para concluir, uma frase de Nelson Mandela:

“O impossível é apenas uma questão de opinião.”

Boa sorte para nós.

 

About Eduardo Luzio

Economista pela USP (88) e PhD pela PhD University of Illinois (93). Consultor em finanças corporativas e estratégia. Professor de finanças na FEA-USP, FGV -SP e Insper.

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